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quinta-feira, 5 de junho de 2014

poeminha fenomenológico

meus amores, a fenomenologia em poema do pessoa...

O guardador de rebanhos
...                               

II - O Meu Olhar

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender ...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...

quarta-feira, 7 de maio de 2014

O museu é a historicidade da morte...

esse e outras temas são abordados pelo o artigo do professor Furlan "Arte, linguagem e expressão na filosofia de Merleau-Ponty". O texto está realmente muito bom, trabalha com questões centrais para nossa disciplina de Arte e Cultura. Relaciona a concepção da arte em Merleau-Ponty com a situação cultural em que ela nasce, sua relação com a gestualidade do artista, retirando a discussão do paradigma da mimesis, mas sem a colocar numa idealidade ou idealismo de um dever do gênio instaurador de cultura. Enfim, finalmente lembrei de disponibilizá-lo para vocês, assim como disponibilizar a obra "Fenomenologia da percepção", para quem tiver interesse!

Abraços

quarta-feira, 12 de março de 2014

Impressões Elizias: Vazio, solidão e amor na cidade ....

Impressões Elizias: Vazio, solidão e amor na cidade ....: ...

Para o pessoal da disciplina de arte e cultura, segue o ensaio sobre a relação entre o filme Medianeras e a obra de Atget que comentei com vocês hoje! Apenas para instigar a assistir o filme!

Aqui o link para ver o vídeo sobre "o fim de um mundo" pensado através da tragédia e Nietzsche! só para os curiosos....
http://www.cpflcultura.com.br/2009/01/30/o-fim-de-um-mundo/

sábado, 8 de março de 2014

A humanização pela arte e pela beleza! Um papo com Adélia..

Queridxs, esse vídeo da Adélia Prado que comentei com vocês! Ela fala lindamente, de um jeito poético e comovente sobre a universalidade do sentimento do belo e da impossibilidade de defini-lo. Da impossibilidade também de explicar o processo criativo. Ok, ela é uma poetisa, seu material são as palavras, mas vale para todos os tipos de arte e para toda comoção pelo belo, seja onde for! Kant não diria, jamais, o belo tão belamente! Bravo, assistam!



Abraços!

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Estética e filosofia da Arte - O conceito de mímesis em Platão

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração
(Fernando Pessoa)

Queridxs, nas próximas aulas trabalharemos o conceito de mímesis em Platão. Segundo Cláudia Drucker*, Platão foi o primeiro filósofo da arte, por ter sido "[...] o primeiro a traçar uma distinção nítida entre a arte no sentido de 'ofício' (téchne) e arte (mímesis) no sentido em que falamos das belas-artes, dando a cada uma sua definição. Platão define as belas-artes como instâncias da imitação e como o inverso do verdadeiro saber." (p. 35)
A mimesis está submetida ao mundo sensível como sua cópia, seu simulacro, não constituindo portanto um conhecimento verdadeiro nem uma techne. Na polis ideal da “República” de Platão, a mimesis passa a ser julgada em função da transcendência efetivamente real das idéias. Trata-se de uma engenhosa e rigorosa fundamentação ontológica, na qual a arte, a fim de ganhar o direito de permanecer entre os cidadãos, deverá abrir mão de seu caráter polimorfo, assumir a finalidade de educar e assim, tornar-se uma techne.
Podemos suspeitar então, de que é assim que surge um dos primeiros pensamentos acerca da arte (estética) e quiça os primórdios da crítica de arte. Que a submete a censura, é verdade e sequer põe em causa sua autonomia, ou a do artista, mas que, a partir do triângulo: obra, arte e crítico que estamos trabalhando, oferece pela primeira vez o elo de ligação entre eles, a saber, o pensamento acerca da beleza e/ou acerca da finalidade da obra.
No caso da pintura e/ou da escultura eis como Platão a enquadra:
"No começo do livro final da República, Sócrates compara três tipos de criadores: o demiurgo divino, o marceneiro e o pintor. Tomemos por exemplo uma cama para explicar as diferenças entre a atividade de cada um. Há uma cama por si mesma, criada pelo demiurgo, em referência à qual toda a multiplicidade de camas é nomeada. É a Forma da cama. Ela não tem nem tamanho e nem figura definidos, não pode ser feita de nenhum material em particular, nem pertence a nenhum período ou estilo particular da história do mobiliário. Ela não pode ter nenhum traço visível, pois isto a tornaria novamente algo singular. A Forma da cama se define por oposição aos indivíduos e nunca se identifica com indivíduo nenhum, preservando sua universalidade deste modo, bem como sua heterogeneidade diante do sensível. Se ela tivesse qualquer característica individualizante, seria necessário que Deus criasse ainda uma outra, mais universal ainda e acima dela. Quando um marceneiro (o technítes, artesão) planeja fabricar uma cama, ele precisa concentrar-se sobre essa cama realíssima e esforçar-se com o auxílio do cálculo para fabricar uma cama que seja adequada ao uso. Pensemos agora na relação do artista com a cama. O pintor que apenas pinta a cama fabricada pelo marceneiro está duplamente distante da Forma da cama, ou cama em si, ou cama ideal. Como o pintor imita a cama do marceneiro, que já está a dois passos afastado da cama em si, ele se afasta três passos da cama em si: “aquele que está três graus afastado da natureza chama ‘imitador’” (Rep. 597e). (Lembremos que o grego antigo não conta a partir do zero, mas a partir do um, antes de o Ocidente introduzir o zero na aritmética.). Assim, as belas-artes, isto é, as imitações encontram-se “a uma distância de três graus da verdade” (Rep. 602c). As imitações são cópias de cópias de coisas verdadeiras." (DRUCKER, p. 38-39)

* No link com material da nossa disciplina encontra-se o livro de Estética elaborado por professora para os alunos do curso de licenciatura em filosofia à distância da UFSC.

Referência:
DRUCKER, Claudia Pellegrini. Estética. Florianópolis : FILOSOFIA/EAD/ UFSC, 2009.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Arte e Cultura

Abaixo segue um trecho da Marilena Chauí, a escrita é simples pois foi pensado para alunos do ensino médio, mas nem por isso as reflexões deixam a desejar em importância. Ele nos ajudará a inaugurar as reflexões do curso Arte e Cultura (mas servirá também para os alunos de Estado e Sociedade, se bem se lembram de algumas questões que apareceram na nossa aula de ontem). Eis alguns conceitos que iremos discutir ao longo do semestre:
Portinari - Café, 1944

Natureza versus Cultura?
Cultura igual a Civilização?
Culto versus Inculto?
Arte simbolo da Cultura?
Arte reflexo da Cultura?
Arte separada da Cultura?
Capital cultural
Poder simbólico



Natureza humana? - Marilena Chauí

É muito comum ouvirmos e dizermos frases do tipo: “chorar é próprio da natureza humana” e “homem não chora”. Ou então: “é da natureza humana ter medo do desconhecido” e “ela é corajosa, não tem medo de nada”. Também é comum a frase: “as mulheres são naturalmente frágeis e sensíveis, porque nasceram para a maternidade”, bem como esta outra: “fulana é uma desnaturada, pois não tem o menor amor aos filhos”.
Com freqüência ouvimos dizer: “os homens são fortes e racionais, feitos para o comando e a vida pública”, donde, como conseqüência, esta outra frase: “fulana nem parece mulher. Veja como se veste! Veja o emprego que arranjou!”. Não é raro escutarmos que os negros são indolentes por natureza, os pobres são
naturalmente violentos, os judeus são naturalmente avarentos, os árabes são naturalmente comerciantes espertos, os franceses são naturalmente interessados em sexo e os ingleses são, por natureza, fleumáticos.
Frases como essas, e muitas outras, pressupõem, por um lado, que existe uma natureza humana, a mesma em todos os tempos e lugares e, por outro lado, que existe uma diferença de natureza entre homens e mulheres, pobres e ricos, negros, índios, judeus, árabes, franceses ou ingleses. Haveria, assim, uma
natureza humana universal e uma natureza humana diferenciada por espécies, à maneira da diferença entre várias espécies de plantas ou de animais. 
Em outras palavras, a Natureza teria feito o gênero humano universal e as espécies humanas particulares, de modo que certos sentimentos, comportamentos, idéias e valores são os mesmos para todo o gênero humano (são naturais para todos os humanos), enquanto outros seriam os mesmos apenas para cada espécie (ou raça, ou tipo, ou grupo), isto é, para uma espécie determinada. Dizer que alguma coisa é natural ou por natureza significa dizer que essa coisa existe necessária e universalmente como efeito de uma causa necessária e universal. Essa causa é a Natureza. Significa dizer, portanto, que tal coisa não depende da ação e intenção dos seres humanos. Assim como é da natureza dos corpos serem governados pela lei natural da gravitação universal, como é da natureza da água ser composta por H2O, ou como é da natureza da abelha
produzir mel e da roseira produzir rosas, também seria por natureza que os homens sentem, pensam e agem. A Natureza teria feito a natureza humana como gênero universal e a teria diversificado por espécies naturais (brancos, negros, índios, pobres, ricos, judeus, árabes, homens, mulheres, alemães, japoneses, chineses, etc.).
Que aconteceria com as frases que mencionamos acima se mostrássemos que algumas delas são contraditórias e que outras não correspondem aos fatos da realidade? Assim, por exemplo, dizer que “é natural chorar na tristeza” entra em contradição com a idéia de que “homem não chora”, pois, se isso fosse verdade, o homem teria que ser considerado algo que escapa das leis da Natureza, já que chorar é considerado natural. O mesmo acontece com a frase sobre o medo e a coragem: nelas é dito que o medo é natural, mas que uma certa pessoa é admirável porque não tem medo. Aqui, a contradição é ainda maior do que a anterior, uma vez que parecemos ter admiração por quem, misteriosamente, escapa da lei da Natureza, isto é, do medo.
Em certas sociedades, o sistema de alianças, que fundamenta as relações de parentesco sobre as quais a comunidade está organizada, exige que a criança seja levada, ao nascer, à irmã do pai, que deverá responsabilizar-se pela vida e educação da criança. Em outras, o sistema de parentesco exige que a criança seja entregue à irmã da mãe. Nos dois casos, a relação da criança é estabelecida com a tia por aliança e não com a mãe biológica. Se assim é, como fica a afirmação de que as mulheres amam naturalmente os seus filhos e que é desnaturada a mulher que não demonstrar esse amor?
Em certas sociedades, considera-se que a mulher é impura para lidar com a terra e com os alimentos. Por esse motivo, o cultivo da terra, a alimentação e a casa ficam sob os cuidados dos homens, cabendo às mulheres a guerra e o comando da comunidade. Se assim é, como fica a frase que afirma que o homem foi feito pela Natureza para o que exige força e coragem, para o comando e a guerra, enquanto a mulher foi feita pela Natureza para a maternidade, a casa, o trabalho doméstico, as atividades de um ser frágil e sensível?
Os historiadores brasileiros mostram que, por razões econômicas, a elite dominante do século XIX considerou mais lucrativo realizar a abolição da escravatura e substituir os escravos africanos pelos imigrantes europeus. Essa decisão fez com que o mercado de trabalho fosse ocupado pelos trabalhadores
brancos imigrantes e que a maioria dos escravos libertados ficasse no desemprego, sem habitação, sem alimentação e sem qualquer direito social, econômico e político. Em outras palavras, foram impedidos de trabalhar e foram mantidos sem direitos, tais como viviam quando estavam no cativeiro. Além disso, sabe-se que quando os colonizadores instituíram a escravidão e trouxeram os africanos para as terras da América, fizeram tal escolha por considerarem que os negros possuíam grande força física, grande capacidade de trabalho e muita inteligência para realizar tarefas com objetos técnicos como o engenho de açúcar. Se assim é, se a escravidão foi instituída por causa da grande capacidade e inteligência dos africanos para o trabalho da agricultura, se a abolição foi realizada por ser mais lucrativo o uso da mão-de-obra imigrante para um certo tipo de agricultura (o café) e para a indústria, como fica a afirmação de que a Natureza fez os africanos indolentes, preguiçosos e malandros?
Poderíamos examinar cada uma das frases que dizemos ou ouvimos em nosso cotidiano e que naturalizam os seres humanos, naturalizam comportamentos, idéias, valores, formas de viver e de agir. Veríamos como, em cada caso, os fatos desmentem tal naturalização. Veríamos como os seres humanos variam em conseqüência das condições sociais, econômicas, políticas, históricas em que vivem. Veríamos que somos seres cuja ação determina o modo de ser, agir e pensar e que a idéia de um gênero humano natural e de espécies humanas naturais não possui fundamento na realidade. Veríamos – graças às ciências humanas e à Filosofia – que a idéia de natureza humana como algo universal, intemporal e existente em si e por si mesma não se sustenta cientificamente, filosoficamente e empiricamente. Por quê? Porque os seres humanos são
culturais ou históricos. (CHAUÍ, M. Convite à Filosofia - p. 367-369)

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Da faculdade de julgar

Na aula de hoje vamos falar um pouquinho sobre a faculdade de julgar em Kant e discutirmos a introdução da "Crítica da faculdade do juízo". Não se desesperem queridxs, passei a semana toda pensando em vocês e num jeito de esclarecer essa parafernalha conceitual! Recomendo fortemente a leitura do livro "Estética" da professora Cláudia Drucker, que é bem claro sem perder o rigor. Abaixo posto o esquema que usarei, uma cartografia conceitual que fiz dessa parte do texto.

CRÍTICA DA FACULDADE DO JUÍZO — Immanuel Kant

O círculo é redondo
O círculo é uma superfície plana cujos pontos são eqüidistantes de um ponto fixo -- o centro
O círculo é verde
O círculo é belo



CONCEITOS DE NATUREZA
§   Filosofia da Natureza (teórica)
§   Legislação pelo o entendimento (Conclusões mediante inferências)
§   Representa os objetos na intuição como fenômenos
§   Prescrições e regras sensíveis
§   Realidade sensível
§   Faculdade de conhecimento

CONCEITOS DE LIBERDADE
§   Filosofia Moral (prática)
§   Legislação pela razão (Legislação autêntica)
§   Representa os objetos como coisas em si mesmas
§   Leis supra-sensíveis
§   Realidade prática
§   Faculdade de apetição


§   Abismo intransponível entre ambas mediante uso teórico da razão
§   Entretanto, o conceito de liberdade deve efetivar no mundo o fim de suas leis, logo a forma natureza tem que ser pensada conformidade a leis, concordante com a possibilidade do fim nela colocado pelo conceito de liberdade
§   FACULDADES DA ALMA: conhecimento, sentimento de prazer e desprazer, apetição


FACULDADE DO JUÍZO
§  Termo médio entre o entendimento e a razão
§  Não legisla, mas contém princípios a priori para procurar leis
§  Puramente subjetivo
§  Não contem campo de objetos, mas possui território próprio
§  Sentimento de prazer e desprazer (intermediário entre as duas faculdades superiores)


§  Faculdade de juízo em geral: Faculdade de pensar o particular como contido no universal
§  Faculdade de juízo determinante: A regra da subsunção do particular é dada, e aplicada a natureza
§  Faculdade de juízo reflexiva: Só o particular é dado, para o qual ela deve encontrar o universal, ela deve pensar sobre sua lei e aplica-la somente a si mesma. (Esta faculdade dá a lei a si mesma e não a natureza)
§  Fim: Conceito de um objeto na medida em contém ao mesmo tempo o fundamento da efetividade deste objeto
§  Conformidade a fins (Zweckmässigkeit): Acordo de uma coisa com aquela constituição das coisas, possível somente segundo fins
§  Conformidade a fins na natureza: Representação da natureza como se o entendimento contivesse o fundamento do múltiplo de suas leis empíricas, originado na faculdade de juízo reflexiva
§  Ligação do sentimento de prazer com o princípio de conformidade a fins da natureza: Essa concordância da natureza com a universalidade dos princípios é ajuizada como contingente e ao mesmo tempo imprescindível para nossas necessidades intelectuais. A descoberta desta ordem é uma atividade do entendimento, conduzido pela intenção de um fim necessário. Prazer é a realização de toda e qualquer intenção, que por sua vez, tem como condição uma representação a priori.
§  Natureza estética: Aquilo que na representação de um objeto é meramente subjetivo
§  Validade lógica: Aquilo que nela pode servir ou é utilizado para a determinação do objeto
§  Prazer ou desprazer: Aquele elemento subjetivo que de modo algum pode ser parte do conhecimento (o espaço é subjetivo, mas pode ser conhecido), exprime a adequação do objeto às faculdades de conhecimento em jogo na faculdade de juízo reflexiva
§  Juízo estético: sobre a conformidade a fins de um objeto (prazer) que não se fundamenta em qualquer conceito existente de ajuizar objeto e nenhum conceito é por ele criado
§  Belo: objeto julgado no juízo estético
§  Gosto: faculdade de julgar mediante tal prazer
O prazer não é produzido pelo conceito de liberdade e tampouco pode advir de conceitos, mas tem sempre que ser conhecido através da percepção refletida ligada a esta.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Pinceladas entre Ponty e Magritte ...

Não sei até que ponto a coleção da editora Civilização Brasileira sobre os artistas é a melhor fonte de interpretação de obras disponível (ao menos é ótimo ter a reprodução das imagens impressas), mas revisitando aquela dedicada ao surrealista (ou quase-surrealista?!?) René Magritte, encontrei algumas interpretações (explicações) de sua obra bem próximas (ao menos conceitualmente) da definição merleau-pontyana de obra que pincelamos entender em nosso primeiro encontro. Abaixo algumas citações sobre:

"Em meados dessa década [primeira do século XX], Magritte decide renunciar à complacência da pintura tradicional com os contrastes de cor e com as oposições de estilo para representar exatamente os objetos segundo sua fria aparência. A coluna vertebral de sua obra assenta-se sobre o achado de relações insuspeitas entre eles como fonte de efeitos poéticos, fonte essa da qual nunca se afastará ao longo de sua carreira.

Deslocar os objetos de seus locais habituais é para Magritte o recurso para gerar efeitos poéticos sobre o cotidiano:

"'Em meus quadros, os objetos situam-se em lugares onde nunca foram encontrados'. [...] Segundo suas próprias palavras, deve-se fazer com que objetos familiares 'gritem', e para isto é necessário que seja alterada a ordem de seus relacionamentos habituais"

Fazer "pensar de uma maneira distinta do habitual" seria a função da pintura na concepção de Magritte. Ele "[...] concebia a pinutura como um meio para revelar ideias e criar realidades cuja virtualidade não tem confirmação possível na experiência do cotidiano."

Para relembrar, vimos que em "A dúvida de Cézanne", Merleau-Ponty nos propõe as seguintes definições:

žA arte não é uma imitação nem por outro lado, uma fabricação segundo os votos do instinto e do bom gosto. É uma operação de expressão
Cézanne, segundo suas próprias palavras: escreve enquanto pintor o que ainda não foi pintado e o torna pintura de todo
Artista: “aquele que fixa e torna acessível aos mais humanos dos homens o espetáculo de que participam sem perceber
Obra: aquilo que nos permite “[...] Esquecermos as aparências viscosas, equívocas e, através delas, vamos direto às coisas que apresentam.
Um pintor como Cézanne, um artista, um filósofo, devem não somente criar e exprimir uma ideia, mas ainda despertar a experiências que vão enraizar em outras consciências

Eu sabia que aquela minha infame referência ao surrealismo como um possível exemplo de definição de obra de arte merleau-pontyana não havia surgido do nada! Em todo caso é um assunto muito "em aberto" para nós, afinal, essa comparação me parece tão escancaradamente explícita que quase pode chegar a ser ingênua e, ademais, nos deixa desconfortáveis em relação a outros artistas e obras que não se definem conceitualmente dessa forma (pintura conceitual é uma expressão usada no texto da coleção para se referir ao trabalho de Magritte). A vermos...

A filosofia no Camarim, 1947

As relações perigosas
Isto não é um cachimbo
O tempo ameaçador, 1931-1932



Próxima aula: O texto do Marc Jimenez para a próxima aula já está disponível no xerox do CEART. O filme: "Moça com brinco de pérola" é um bom exemplo ficcional sobre a descrição que o autor nos fornece do surgimento dos conceitos de arte e de artista (bem como de um mercado da arte). Ele pode ser visto na íntegra on-line aqui

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Estética e crítica de arte

Plano em construção

sete assuntos por segundo
Ut picutra, poesis....
Horácio
   Parque que serve a pintura
a não ser quando apresenta
   precisamente a procura
daquilo que mais aparenta,
   quando ministra quarenta
enigmas vezes setenta?
(Paulo Leminski)

Ao se interpretar uma obra de arte, pelo menos dois elementos fundamentais estão em jogo: a obra e o espectador. Para que o segundo possa operar a reflexão interpretativa, supõe se já feito o trabalho crítico de identificação de um objeto como obra. O que nos permite, entretanto, dizer de um objeto que se trata de arte? E mais, quando começa a surgir a arte como aquilo que pode ser julgada/criticada?

Segundo Jimenez, o “crítico” ou o “árbitro das artes” é uma categoria que surge junto com a autonomia do artista, depois que ele deixa de ser um mero artesão (idade média) e passa ser o gênio proprietário da obra e do talento.

O nosso curso sobre Estética e Crítica de Arte começará com a leitura da obra "O que é estética?", de Marc Jimenez, para averiguarmos sua tese de quando a arte passa a ser um objeto passível de crítica. Quero com isso, estabelecer com vocês o surgimento desse tipo de posicionamento (a saber: o crítico) em relação ao objeto arte. (O texto e outros se encontra aqui)

O que constitui a crítica de arte? Para além de determinar quando há e quando não há arte, ela também supõe em algum momento alguma interpretação. A ideia é, portanto, depois desse primeiro momento de identificação do surgimento da atividade crítica, analisar também a definição de juízo de gosto e de belo de Kant, por se tratar, certamente, de um cânon para muito do que se fala em estética e crítica de arte contemporaneamente.

Posteriormente, poderemos, seguindo a perspectiva fenomenológica, estudar os critérios elencados pelo filósofo francês Maurice Merleau-Ponty em seu artigo A dúvida de Cézanne. Nele, Merleau-Ponty faz, o que poderíamos chamar de uma interpretação da pintura e do pintor, nos fornecendo elementos para identificar uma obra e um artista. Os critérios aí elencados poderão ser comparados com os da teoria da formatividade de Luigi Pareyson, que por seu turno, nos apresenta o que na sua concepção significa ler, interpretar o que quis dizer uma obra, uma vez que a classificamos com tal.


Por fim, algumas sugestões de leitura e discussão deverão seguir o caminho de avaliar a contemporânea crise na crítica de arte. Os textos ainda estão sendo coletados para esta tarefa.