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sexta-feira, 18 de setembro de 2009

A "associação" e a "projeção de recordações" II

Ontem o encontro foi temperado! Ao perseguirmos as ditas ‘associações’ e ‘projeção de recordações’ não conseguimos nos desvencilhar de nosso caso com a percepção. Ah, a percepção!
Bem, antes de rememorá-lo, uma correção importante sobre o último post: neste momento do texto, ainda está na mesa sim a tese empirista (poderia parecer que não quando afirmei que “Neste segundo capítulo, indica-se versar sobre as explicações causais da percepção, tomando-a como originária de algum tipo de atividade sintética psicológica” — ao menos eu pressentia que não).
Em ambos os casos, tanto na ‘associação’, quanto na ‘projeção’ está tácita ou explicitamente suposta a tese da sensação tratada no capítulo anterior. Retomando o que o cansaço me impediu de explorar outrora, trata-se da suposição de que nossa experiência pode ser dissecada e reduzida a puras impressões que comporiam o percebido. Ora, já neste segundo capítulo, Ponty se deitou sobre as hipóteses de como estas puras impressões — já desmentidas, inclusive pela gestalt (que coisa, estaria ele a “chutar cachorro morto”???) — se reúnem para compor os objetos da experiência. É aí que entra a hipótese associassionista de a percepção ser construída, seja por contigüidade, seja por semelhança. No último caso a conformidade entre os conteúdos colecionados resultaria na experiência. Trata-se aqui da tese empirista (rapidamente considerada, é verdade).
Uma pausa: o que está em jogo nestas inquirições é pergunta pela unidade, pelo sentido que os dados empirícos (das múltiplas unidades de sensações) podem obter, experiência aqui é considerada, portanto, como unidade de sentido (acima postarei um trecho da metafísica de Aristóteles que pode nos ajudar a reconhecer esta preocupação filosófico-científica na investigação acerca da percepção). Prosseguindo:
O primeiro caso (contigüidade) implicaria um hábito (e, por conseguinte, chamaria à baila a memória, abrindo o precedente para a ‘projeção’), já que de alguma maneira o número de vezes em que uma qualidade se manifestou em conjunto ou por sucessão a outra seria a explicação da unidade. Entram em cena com isto as teorias, dentre elas as da psicologia, que colocam a associação na atividade da consciência. Ponty as designa como anfíbias, pois trazem para plano da mente relações que pertenceriam ao mundo. Nos dois casos mencionados, a ‘consciência’ é definida ‘tomando sua clareza por empréstimo da sensação’, tornando-se tributária dela e recaindo em todos os problemas mencionados no capítulo anterior.
Na ‘projeção de recordações’ procura-se resolver os impasses empiristas alegando-se que a percepção é construída com auxílio da memória. A mim, parece ser a radicalização da associação por contigüidade. As ilusões seriam o argumento de que quando nos enganamos, em verdade o que ocorre é um erro na projeção que fazemos dos dados retidos mnemonicamente.
Carlos acendeu uma luz sobre a questão em voga lembrando a existência em psicologia do ‘teste das manchas’. Um teste psicológico projetivo desenvolvido pelo psiquiatra suíço Hermann Rorschach que consiste em dar possíveis interpretações a dez pranchas com manchas de tinta simétricas. A partir das respostas, acredita-se ser possível obter um quadro amplo da dinâmica psicológica do indivíduo. (fonte básica: wikipedia... :)As hipóteses em torno deste teste pensam que, ou bem a forma se impõe ao sujeito (gestalt), d’onde ele fará as relações com a mancha, ou bem o sujeito se impõe a forma, projetando-se nela. Elas parecem nos exemplificar de modo um pouco mais claro o que está em jogo na ‘associação’ e na ‘projeção’.
Seria pertinente agora falar sobre que problemas afinal Merleau-Ponty detecta nestas teorias, mas, como afirmei inicialmente, o encontro foi temperado e esta receita é um pouco complexa para uma cozinheira amadora e desastrada como eu, ademais, não gostaria de deixar postagens muito longas para não incentivar a preguiça e tornar este blog um espaço ermo. Apenas como dica, tenterai retomar n'algum próximo post em que consistem ‘os fenômenos que estas teorias obscurecem, complicam’, quiçá este próprio osbcurecer também não se torne tema...

Piscadelas ;)