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quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Oficina: Antropologia teatral, Nudez e America Latina



É impossível pensar a criação artística nas artes cênicas hoje sem pensar na utilização do corpo como base da ação do ator. É impossível se distanciar das implicações políticas e estéticas neste ato.
Vivemos um momento de profundas transformações sociais, a evidência da transformação política que nos cerca, e sua importância, trouxe – talvez graças a presença intensa da internet e os novos meios de difusão de informação – a política para o centro da mesa, para o centro da roda e para o centro do corpo.
O arco simbólico que liga a importância da política que vislumbramos hoje e o corpo começou a tomar força nos anos 60, e agora é uma realidade que não permite separar os dois, o ator precisa tomar consciência das possibilidades do seu corpo, mas precisa também entender claramente dos dispositivos que o moldam na rua, nas instituições e nas relações sociais.
A Antropologia Teatral, surgida nos anos 60 com Odin Teatret, foi por muito tempo o condutor do pensamento corporal/político do teatro de grupo, e teve muita influência na América Latina. Somos herdeiros dessa influência. Mas como bons praticantes da antropofagia, “comemos a proposta do grupo Dinamarquês/Italiano/Polonês para dentro de nosso corpo social/carnal/simbólico e poético para transformar em práticas que mais nos apetecem para nosso tempo, nosso lugar e nossa história.
O trabalho que o grupo peruano Yuyachikani desenvolveu e ainda desenvolve representa muito bem as ligações entre o legado do pensamento da antropologia teatral e a transformação deste pensamento na busca de um teatro política e esteticamente vinculado à América Latina.
Partindo deste contexto, a proposta prática seria explorar aspectos pessoais e políticos, partindo de experiências ainda latentes no corpo dos participantes. Para isso o resgate de memórias através de textos, imagens e memórias.
A proposta deste encontro pode se desenvolver tanto na prática, com exercícios cênicos, como através de um debate, ou ainda, contemplar as duas metodologias.

Oficina ministrada por Lara Matos (Atriz, produtora do grupo Experiência Subterrânea, doutoranda em Teatro pelo PPGT- Udesc

quinta-feira, 5 de junho de 2014

poeminha fenomenológico

meus amores, a fenomenologia em poema do pessoa...

O guardador de rebanhos
...                               

II - O Meu Olhar

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender ...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...

quarta-feira, 7 de maio de 2014

O museu é a historicidade da morte...

esse e outras temas são abordados pelo o artigo do professor Furlan "Arte, linguagem e expressão na filosofia de Merleau-Ponty". O texto está realmente muito bom, trabalha com questões centrais para nossa disciplina de Arte e Cultura. Relaciona a concepção da arte em Merleau-Ponty com a situação cultural em que ela nasce, sua relação com a gestualidade do artista, retirando a discussão do paradigma da mimesis, mas sem a colocar numa idealidade ou idealismo de um dever do gênio instaurador de cultura. Enfim, finalmente lembrei de disponibilizá-lo para vocês, assim como disponibilizar a obra "Fenomenologia da percepção", para quem tiver interesse!

Abraços

sexta-feira, 21 de março de 2014

despalavras: conceitos versus imagens! (e avisos)

Queridxs todxs xs alunxs!

Só para lembrar que me ausentarei na próxima semana, então todas as aulas foram canceladas. Todas as turmas já foram avisadas e já têm atividades previstas. Na próxima semana retornaremos normalmente.

Para turma de Estética e Crítica de Arte, está confirmado nossa visita ao museu O mundo ovo de Eli Heil. Ademais, na sequência da discussão que encerrou a nossa aula, segue um poema de Manoel de Barros que me parece relacionar muito bem a tensão entre as imagens (eikones) e os conceitos (noetas). Essa tensão pode ser medida e/ou mediada pela poesia (tomada aqui enquanto poeisis, isto é, enquanto atividade poética, de fabricação). Se Manoel está certo, a arte (poesia) de criar imagens, ícones, ou refazer a imagem do mundo de um modo despreocupado com a unidade incondicionada e vazia do conceito. O que vocês acham disso? Algo para pensar na próxima semana, quando estudaremos com mais afinco o conceito de mímeses (sobre isso, dar uma olhada aqui também)



Despalavra - Manoel de Barros

Hoje eu atingi o reino das imagens, o reino da despalavra.
Daqui vem que todas as coisas podem ter qualidades humanas.
Daqui vem que todas as coisas podem ter qualidades de pássaros.
Daqui vem que todas as pedras podem ter qualidade de sapo.
Daqui vem que todos os poetas podem ter qualidades de árvore.
Daqui vem que os poetas podem arborizar os pássaros.
Daqui vem que todos os poetas podem humanizar as águas.
Daqui vem que os poetas devem aumentar o mundo com suas metáforas.
Que os poetas podem pré -coisas, pré-vermes, podem pré-musgos.
Daqui vem que os poetas podem comprender o mundo sem conceitos.
Que os poetas podem refazer o mundo por imagens, por eflúvios, por afeto.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Impressões Elizias: Vazio, solidão e amor na cidade ....

Impressões Elizias: Vazio, solidão e amor na cidade ....: ...

Para o pessoal da disciplina de arte e cultura, segue o ensaio sobre a relação entre o filme Medianeras e a obra de Atget que comentei com vocês hoje! Apenas para instigar a assistir o filme!

Aqui o link para ver o vídeo sobre "o fim de um mundo" pensado através da tragédia e Nietzsche! só para os curiosos....
http://www.cpflcultura.com.br/2009/01/30/o-fim-de-um-mundo/

sábado, 8 de março de 2014

A humanização pela arte e pela beleza! Um papo com Adélia..

Queridxs, esse vídeo da Adélia Prado que comentei com vocês! Ela fala lindamente, de um jeito poético e comovente sobre a universalidade do sentimento do belo e da impossibilidade de defini-lo. Da impossibilidade também de explicar o processo criativo. Ok, ela é uma poetisa, seu material são as palavras, mas vale para todos os tipos de arte e para toda comoção pelo belo, seja onde for! Kant não diria, jamais, o belo tão belamente! Bravo, assistam!



Abraços!

sábado, 1 de março de 2014

Arte e cultura - Agora é que são elas!

Povo, para nossa discussão semestral creio cada vez mais que a obra do Leminski "Agora é que são elas" vai ser um excelente ponto de intersecção. Ele trata muito bem desse sujeito fragmentado da pós-modernidade (que é muito importante para compreender a questão das identidades culturais em Hall), e também dessa construção da identidade que não é mais fornecida pela autonomia subjetiva. Por isso, gostaria de incluí-lo entre as nossas referências básicas. O texto já pode ser consultado aqui. Abaixo deixo o trecho de um artigo em que estou trabalhando, sobre a relação desse texto com o pensamento de Merleau-Ponty:

[...]
Merleau-Ponty visa superar a dicotomia entre o “natural” e o “cultural”. Para ele, só haveriam signos naturais se pudéssemos falar em “estados de consciência” aos quais a organização anatômica de nosso corpo, fizesse corresponder gestos definidos. Isso, entretanto, não existe e os gestos emocionais variam de cultura para cultura, a diferença das mímicas para expressar os sentimentos corresponde a uma diferença das emoções, não só o gesto, mas também o modo de acolher a situação é diferente. Trata-se do modo como se faz uso do corpo, que pode até ser da mesma estrutura, mas, não quer dizer que no equipamento psicofisiológico haja uma natureza humana dada, como ocorre no mundo dos instintos. Para Merleau-Ponty, o uso que o homem fará de seu corpo transcende o corpo enquanto ser simplesmente biológico. Os sentimentos e suas condutas são tão inventados quanto as palavras. Não dá para sobrepor no homem, comportamentos “naturais” e um mundo cultural fabricado, já que, nele, tudo é natural e tudo é fabricado, toda palavra e conduta devem algo ao ser biológico e desvia às condutas vitais de sua direção.

[...]
De um modo geral, suas obras em poesia ou em prosa abraçam o desafio posto à literatura a ponto de vir se tornar um estilo de transgressão violenta quanto ao próprio uso da linguagem. É o que ganha evidência, em especial, um de seus mais importantes e expressivos trabalhos, o romance Agora é que são elas. Neste parece ser possível encontrar até mesmo aquela dublagem aludida por Merleau-Ponty entre a fala falada/fala falante. Com efeito, já na contracapa, a obra declara tratar-se de “Ficção, re-ficção, uma história que desvenda o processo de todas as histórias, AGORA É QUE SÃO ELAS, uma novela com começo, meio e fim (não necessariamente nessa ordem, é claro).” Isso porque, justamente, um dos seus personagens, o Dr. Propp, a certa altura declara ter descoberto

[...] que todas as histórias, no fundo, constituem UMA SÓ HISTÓRIA. E [que] aplicou-se a descobrir a cadeia de constantes, a lei lógica e matemática que rege a geração dos enredos, o vertiginoso movimento das constelações que constituem uma intriga. Todo entrecho, para ele, reduz-se à combinação de algumas funções básicas [...] (LEMINSKI, 1984, p. 12).

O que essa passagem mostra é o quanto a expressão literária de tendência da fala falada recai no esquema em que é reconhecida e acolhida como uma “verdade”, em virtude da ilusão de que sempre foi assim. É como se o momento linguageiro de instauração de sentido fosse cristalizado e permanecesse retido, de modo a atuar no presente como uma espécie de fundo desde onde os sujeitos operam. E é por isso que o narrador da obra, seu paciente, pode declarar: “Era confortador. E era apavorante. Gostoso saber que você pertencia a uma lógica maior que você, um fundo contra o qual tua figura se projetava. Mas eu me cagava de medo de saber que viver, então, era só isso, e assim, e não de outra forma.” (LEMINSKI, 1984, p. 13). Assim, é somente num momento em que se viola esse sentido instituído, re-significando por meio de uma operação linguageira o sentido dos gestos, dos comportamentos, das falas é que a cultura se projeta em direção a novas tendências. Ou seja, a o mundo cultural é incorporado por novos comportamentos, novos valores que, todavia, logo recairão no esquema das funções do Dr. Propp. O que este primeiro insight visa, enfim, é, mais uma vez, um registro do quanto a literatura de Leminski revive aquele movimento expressivo da linguagem[1] retratado por Merleau-Ponty entre a fala falante e fala falada.
[...]
Num outro trecho anterior da obra, Leminski também já expressara intensamente o drama de que o “real”, isto é, a objetividade na qual se insere nosso corpo material impõe a nossa existência naquilo que o dr. Propp, analista do personagem narrador, entendia como cura: “Propp não. Ele era médico. Queria curar. Quer dizer, dizer NÃO ao real, que quer a doença. Não à inexorável lógica última e suprema de todas as coisas e de todos os processos, aquela coisa que quer que a pedra caia quando jogada pra cima, o que quer que seja que quer que as flores nasçam na primavera e no inverno a gente tenha que usar cinco (ímpar!) roupas sobre o peito” (LEMINSKI, 1984, p. 12). O que se descobrirá na sequência do texto, e que também o narrador leminskiano descobre num dado momento, é que mesmo o “real” é, em verdade, uma apropriação linguística , isto é, uma expressão que retoma o mundo e o corpo desde a fala enquanto um comportamento.



[1] Na publicação de Causeries (coletânia de conferências encomendadas pela Rádio Nacional Francesa e transmitidas pela Rede Programa Nacional de Radiodifusão Francesa, em 1948), Merleau-Ponty diz que na literatura, a tarefa do poeta (apoiando-se em Mallarmé) é “[...] substituir a designação corrente das coisas, que as dá como ‘bem conhecidas’, por um gênero de expressão que nos descreve a estrutura essencial da coisa e nos força assim a entrar nela” (MERLEAU-PONTY, 2002, p. 59), afirma ainda que “um romance bem-sucedido existe não como soma de ideias ou de teses, mas à maneira de uma coisa sensível e como uma coisa em movimento que se trata de perceber em seu desenvolvimento temporal, cujo ritmo se trata de associarmos e que deixa na lembrança não um conjunto de ideias, mas antes o emblema e o monograma dessas ideias” (Idem, op.cit., p. 60-61).


quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Arte e Cultura

Abaixo segue um trecho da Marilena Chauí, a escrita é simples pois foi pensado para alunos do ensino médio, mas nem por isso as reflexões deixam a desejar em importância. Ele nos ajudará a inaugurar as reflexões do curso Arte e Cultura (mas servirá também para os alunos de Estado e Sociedade, se bem se lembram de algumas questões que apareceram na nossa aula de ontem). Eis alguns conceitos que iremos discutir ao longo do semestre:
Portinari - Café, 1944

Natureza versus Cultura?
Cultura igual a Civilização?
Culto versus Inculto?
Arte simbolo da Cultura?
Arte reflexo da Cultura?
Arte separada da Cultura?
Capital cultural
Poder simbólico



Natureza humana? - Marilena Chauí

É muito comum ouvirmos e dizermos frases do tipo: “chorar é próprio da natureza humana” e “homem não chora”. Ou então: “é da natureza humana ter medo do desconhecido” e “ela é corajosa, não tem medo de nada”. Também é comum a frase: “as mulheres são naturalmente frágeis e sensíveis, porque nasceram para a maternidade”, bem como esta outra: “fulana é uma desnaturada, pois não tem o menor amor aos filhos”.
Com freqüência ouvimos dizer: “os homens são fortes e racionais, feitos para o comando e a vida pública”, donde, como conseqüência, esta outra frase: “fulana nem parece mulher. Veja como se veste! Veja o emprego que arranjou!”. Não é raro escutarmos que os negros são indolentes por natureza, os pobres são
naturalmente violentos, os judeus são naturalmente avarentos, os árabes são naturalmente comerciantes espertos, os franceses são naturalmente interessados em sexo e os ingleses são, por natureza, fleumáticos.
Frases como essas, e muitas outras, pressupõem, por um lado, que existe uma natureza humana, a mesma em todos os tempos e lugares e, por outro lado, que existe uma diferença de natureza entre homens e mulheres, pobres e ricos, negros, índios, judeus, árabes, franceses ou ingleses. Haveria, assim, uma
natureza humana universal e uma natureza humana diferenciada por espécies, à maneira da diferença entre várias espécies de plantas ou de animais. 
Em outras palavras, a Natureza teria feito o gênero humano universal e as espécies humanas particulares, de modo que certos sentimentos, comportamentos, idéias e valores são os mesmos para todo o gênero humano (são naturais para todos os humanos), enquanto outros seriam os mesmos apenas para cada espécie (ou raça, ou tipo, ou grupo), isto é, para uma espécie determinada. Dizer que alguma coisa é natural ou por natureza significa dizer que essa coisa existe necessária e universalmente como efeito de uma causa necessária e universal. Essa causa é a Natureza. Significa dizer, portanto, que tal coisa não depende da ação e intenção dos seres humanos. Assim como é da natureza dos corpos serem governados pela lei natural da gravitação universal, como é da natureza da água ser composta por H2O, ou como é da natureza da abelha
produzir mel e da roseira produzir rosas, também seria por natureza que os homens sentem, pensam e agem. A Natureza teria feito a natureza humana como gênero universal e a teria diversificado por espécies naturais (brancos, negros, índios, pobres, ricos, judeus, árabes, homens, mulheres, alemães, japoneses, chineses, etc.).
Que aconteceria com as frases que mencionamos acima se mostrássemos que algumas delas são contraditórias e que outras não correspondem aos fatos da realidade? Assim, por exemplo, dizer que “é natural chorar na tristeza” entra em contradição com a idéia de que “homem não chora”, pois, se isso fosse verdade, o homem teria que ser considerado algo que escapa das leis da Natureza, já que chorar é considerado natural. O mesmo acontece com a frase sobre o medo e a coragem: nelas é dito que o medo é natural, mas que uma certa pessoa é admirável porque não tem medo. Aqui, a contradição é ainda maior do que a anterior, uma vez que parecemos ter admiração por quem, misteriosamente, escapa da lei da Natureza, isto é, do medo.
Em certas sociedades, o sistema de alianças, que fundamenta as relações de parentesco sobre as quais a comunidade está organizada, exige que a criança seja levada, ao nascer, à irmã do pai, que deverá responsabilizar-se pela vida e educação da criança. Em outras, o sistema de parentesco exige que a criança seja entregue à irmã da mãe. Nos dois casos, a relação da criança é estabelecida com a tia por aliança e não com a mãe biológica. Se assim é, como fica a afirmação de que as mulheres amam naturalmente os seus filhos e que é desnaturada a mulher que não demonstrar esse amor?
Em certas sociedades, considera-se que a mulher é impura para lidar com a terra e com os alimentos. Por esse motivo, o cultivo da terra, a alimentação e a casa ficam sob os cuidados dos homens, cabendo às mulheres a guerra e o comando da comunidade. Se assim é, como fica a frase que afirma que o homem foi feito pela Natureza para o que exige força e coragem, para o comando e a guerra, enquanto a mulher foi feita pela Natureza para a maternidade, a casa, o trabalho doméstico, as atividades de um ser frágil e sensível?
Os historiadores brasileiros mostram que, por razões econômicas, a elite dominante do século XIX considerou mais lucrativo realizar a abolição da escravatura e substituir os escravos africanos pelos imigrantes europeus. Essa decisão fez com que o mercado de trabalho fosse ocupado pelos trabalhadores
brancos imigrantes e que a maioria dos escravos libertados ficasse no desemprego, sem habitação, sem alimentação e sem qualquer direito social, econômico e político. Em outras palavras, foram impedidos de trabalhar e foram mantidos sem direitos, tais como viviam quando estavam no cativeiro. Além disso, sabe-se que quando os colonizadores instituíram a escravidão e trouxeram os africanos para as terras da América, fizeram tal escolha por considerarem que os negros possuíam grande força física, grande capacidade de trabalho e muita inteligência para realizar tarefas com objetos técnicos como o engenho de açúcar. Se assim é, se a escravidão foi instituída por causa da grande capacidade e inteligência dos africanos para o trabalho da agricultura, se a abolição foi realizada por ser mais lucrativo o uso da mão-de-obra imigrante para um certo tipo de agricultura (o café) e para a indústria, como fica a afirmação de que a Natureza fez os africanos indolentes, preguiçosos e malandros?
Poderíamos examinar cada uma das frases que dizemos ou ouvimos em nosso cotidiano e que naturalizam os seres humanos, naturalizam comportamentos, idéias, valores, formas de viver e de agir. Veríamos como, em cada caso, os fatos desmentem tal naturalização. Veríamos como os seres humanos variam em conseqüência das condições sociais, econômicas, políticas, históricas em que vivem. Veríamos que somos seres cuja ação determina o modo de ser, agir e pensar e que a idéia de um gênero humano natural e de espécies humanas naturais não possui fundamento na realidade. Veríamos – graças às ciências humanas e à Filosofia – que a idéia de natureza humana como algo universal, intemporal e existente em si e por si mesma não se sustenta cientificamente, filosoficamente e empiricamente. Por quê? Porque os seres humanos são
culturais ou históricos. (CHAUÍ, M. Convite à Filosofia - p. 367-369)