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domingo, 23 de maio de 2010

Sobre as relações entre o psíquico e fisiológico ou entre consciência e mundo...

... este é o título que seria mais adequado ao capítulo: “O corpo como objeto da fisiologia mecanicista” da primeira parte “O corpo” da obra pontyana.

Já esclareço a razão desta afirmação, antes, permitam-me situá-los e cumprimentá-los adequadamente. Primeiramente, olá! Um aviso importante, o grupo “Fenomenologia da percepção” voltou a ser semanal e nos reunimos todas as segundas no mesmo horário e local. Bem, quase um mês depois quero continuar a saldar minha dívida com este espaço, nós já discutimos o segundo capítulo (“A experiência do corpo e a fisiologia clássica”) conduzidos pelo senhor Otávio e agora já há uns três encontros a flamenca Cláudia nos dirige na tentativa de compreensão do árduo terceiro capítulo (“A espacialidade do corpo próprio e a motricidade”).

Agora sim, retornemos ao primeiro capítulo! Bem, apesar do título “O corpo como objeto e a fisiologia mecanicista”, Merleau-Ponty, num raro momento afirmativo, pouco fala da concepção fisiológica de corpo e nos brinda com uma longa exposição sobre como ele entende ser possível, a partir de uma nova concepção de corporeidade, que se estabeleçam as relações entre o psíquico e o fisiológico. Talvez porque, como de costume, o autor entenda que o leitor já conheça o seu interlocutor, neste caso, adivinhem quem é: ele mesmo na sua obra “A estrutura do comportamento”. Nesta, ele já se deu ao trabalho de evidenciar que as relações estabelecidas a partir da perspectiva fisiológica não funcionam nem mesmo dentro de seu próprio esquema, nele o comportamento (e com ele a percepção e a consciência) não se explica. Com exemplos retirados do seio deste tipo de reflexão demonstra que as relações entre estímulo e resposta não são tão constantes e objetivas como se pretende que o fossem. Tal pretensão é oriunda da tese de que os objetos se relacionam entre si como partes extra partes o que demandam traduzir a noção de organismo em linguagem do em si, para que seja compreendida. Entretanto, a análise de lesões centrais e nas vias sensoriais mostra que as excitações de um mesmo sentido dependem mais da maneira que os estímulos elementares se organizam do que do instrumento material de que se servem. Ora, o comportamento nunca consegue ser reduzido a tais relações distintas, a lesão desvela uma capacidade de adaptação inerente ao organismo acusando sua função de dar uma forma aos estímulos. Este processo não pode ser algo que ocorra em terceira pessoa e do qual o cientista consiga se afastar para ter uma visão objetiva. Fazendo uso de sua marca registrada, Merleau-Ponty vai aos casos de exceção para comprovar a insuficiência desta concepção, desta feita os exemplos eleitos são os casos de “membro fantasma” e os de anosognosia. No primeiro o paciente amputado ainda sente o membro perdido e no segundo, a deficiência de um membro faz com que ele não o sinta mais, que o recuse. Vamos nos deter no primeiro caso, dele podemos perguntar: na ausência de estímulos, como poderia haver a resposta em forma de sensação do membro? Poderíamos dizer se tratar de uma recusa em aceitar a deficiência e neste caso teríamos uma resposta meramente psicológica que, aparentemente, explicaria o fenômeno. Contudo, bem sabemos, os extremos nunca são tão diferentes quanto gostariam e também esta é uma explicação insuficiente, prova disto é que se fizermos uma secção do coto, o paciente deixa de sentir o membro amputado. Por isto, afirmei no início que o título do capítulo deveria ser outro, afinal, o esforço de Ponty aqui, diante do naufrágio destas teses, é o de encontrar um meio de estabelecer uma relação válida entre os âmbitos psíquico e físico ou fisiológico. Sem contentar-se com uma explicação mista que ainda operaria no registro da cisão entre o em si e o para si, ele nos apresenta pela primeiríssima vez (nesta obra) o conceito de ser no mundo. Para compreender esta categoria é preciso sair daquelas que se baseiam no mundo objetivo e considerar o fato de que os reflexos não são processos cegos, mas se ajustam ao sentido da situação e exprimem nossa orientação para um meio de comportamento assim como a ação do meio sobre nós, com ela, é possível ancorar a consciência num certo mundo e dar sentido aquilo que para a concepção científica é uma mera soma de reflexos. A partir deste novo fio condutor de análise os fenômenos já citados podem ser verdadeiramente compreendidos, com ela o corpo ganha duas camadas, a do corpo objetivo e a do corpo habitual. O primeiro é o que conduz o ser no mundo e lhe permite unir-se a este meio (do mundo), confundir-se com seus projetos. E ainda que seja um objeto é totalmente diferente dos demais, pois também pode ser portar como um termo não percebido e como o pivô da percepção dos outros. Ele se habitua a se relacionar e a manipular os objetos deste hábito surge a segunda camada, a do corpo habitual, é nela que podemos encontrar explicação para o membro fantasma, o doente se recusa a aceitar a amputação, pois seu corpo habitual afiança as ações do corpo objetivo o ignorando, literalmente, recalcando-o. Tal constatação, traz consigo uma nova concepção de corporeidade e da relação não só do doente, mas de toda consciência com seu corpo. Isto mesmo meus caros, eis que Merleau-Ponty compara não só a doença, mas também o próprio paradoxo do ser no mundo com o recalque psicanalítico! Diz ele que nossa existência enquanto sujeito suprime, recalca nossa existência enquanto corpo, e agimos na maioria das vezes como se fossemos absolutamente livres de necessidades (ou não sujeitos a corrupção, já liberando aqui alguma interpretação de minha parte...); contudo, o corpo nos situa na existência, e a constância entre alguns circuitos de estímulo e resposta nos insere num a priori ao qual não somos capazes de dar razão. Eis então a ambigüidade (famosa...) do ser no mundo: encarnado (literalmente) no seu corpo, por ele é situado neste mundo e ao mesmo tempo em que pode simplesmente obliterar sua existência biológica, sendo desta forma livre, nunca pode fazê-lo totalmente, pois, não só por algumas vezes ela cobra seu preço como a todo instante opera como um a priori da espécie, do qual o homem participa e que lhe determina mais decisões do que ele pode dar conta....

Ah!! Quantas reflexões podemos fazer a partir desta verdadeira enxurrada de informações! Mas, já me delonguei mais do que gostaria e imagino nem ter sido acompanhada até aqui. Despeço-me com a promessa de posts menos explicativos e mais livres sobre tantas questões instigantes! Por fim, uma pergunta que me acomete: com esta ambigüidade teria Ponty se liberado de uma explicação mista? ...

Piscadinhas,

quarta-feira, 17 de março de 2010

qual o tema do livro?

No nosso primeiro encontro oficial para discussão da "Fenomenologia da percepção" surgiu a pergunta: sobre o que é este livro? ou, por outras: o que quer Merleau-Ponty com ele? Obviamente o título parece evidente, mas, além da dificuldade de se definir a percepção (é preciso todo um cuidado para que não o compreendamos como uma sorte de empirismo, p.ex), é difícil apreender qual o estatuto desta investigação pontyana. Ela tem um apelo epistemológico ou ontológico simplesmente? Guarda um 'quê' de existencialismo? Alguma orientação ética no fim? O percurso excessivamente crítico e complexo do autor nos deixa um pouco a deriva, são tantos e tão variados discursos ali enquadrados...
Lendo o "Elogio do sensível: corpo e reflexão em Merleau-Ponty" de Isabel Matos Dias encontrei uma possível luz para esta questão. De acordo com ela o originário é o objeto fundamental desta obra (DIAS, 1989, p. 147) e a perseguição deste tema é fruto justamente das críticas que remete as posturas unilaterais. Ela entende (e nós a princípio concordamos) que Merleau-Ponty "não adquire uma real autonomia em relação as doutrinas que critica" (DIAS, 1989, p. 146), entretanto, sua falta de autonomia advém da tentativa de estabelecer um meio termo entre os extremos intelectualista e empirista o deixando de algum modo em débito com eles. De qualquer modo, poder-se-ia dizer, para responder nossa pergunta, que este originário é ambíguo e deve comportar um pouco daquilo que cada tese extremista prevê. O estatuto desta ambigüidade (que o próprio Ponty designará posteriormente por "má-ambigüidade"), se ontológico ou da ordem da expressão é algo que autora discute na seqüência (sem concluir, ao menos por enquanto - não terminei a leitura do texto) mas que eu gostaria de deixar como questão para posts futuros.
Quero apenas concluir com uma citação em que ela nos apresenta sobre o conceito de corpo (justamente o tema deste semestre) que parece justificar a ambigüidade, sendo talvez o lugar onde ela se apresenta. Nas palavras de Isabel:

"O corpo é a instância mediadora central para que remetem em última análise, as relações entre os termos principais da filosofia pontiana, em Phénoménologie de la Perception. Meditação entre sujeito e mundo, sujeito e tempo, sujeito e outro, etc. A corporeidade tem assim uma função central de mediação." (DIAS, 1989, p. 151)

Referência:
DIAS, Isabel Matos. O elogio do sensível corpo e reflexão em Merleau-Ponty. Lisboa: Litoral Edições, 1989.