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quinta-feira, 16 de abril de 2015

A certeza de Portinari: elementos para discussão do estatuto da obra de arte em Merleau-Ponty

Querides,

Vou disponibilizar para vocês, no material na rede um texto meu, ainda em fase de construção, ele traz elementos que temos discutido em sala de aula e pode ser um material de suporte no estudo para a avaliação final. Abaixo o resumo:

A certeza de Portinari: elementos para discussão do estatuto da obra de arte em Merleau-Ponty

Ao defender, em La doute de Cézanne, a tese de que a pintura, como uma genuína forma de arte, é uma operação expressiva e que a obra de Cézanne é também constituída de algum modo por sua personalidade hesitante, Merleau-Ponty assume posicionamentos interessantes no campo da filosofia da arte. Tais posturas versam sobre disputas acerca da relação entre arte e mimeses e sobre o conceito de gênio. Entendendo como sendo a tarefa do pintor, do filósofo ou do poeta, a de trazer a tona algo até então não expresso, inusitado; muito peculiarmente, o filósofo francês lhes atribui uma função genuinamente criadora. Neste trabalho será explorado como essas posições merleau-pontyanas subvertem de alguma forma as concepções clássicas de uma maneira bastante generosa para com a arte, na medida em que ele a pensa fora dos parâmetros coercitivos políticos nos quais usualmente se calcou a estética (enquanto filosofia da arte). O viés escolhido para esta reflexão será o de análise da obra do pintor brasileiro Cândido Portinari. Ele foi eleito por várias questões que vão do encontro do mesmo com o impressionismo e as vanguardas francesas, do seu posicionamento importante no modernismo brasileiro, da tarefa social que sua pintura assume, até e de modo especial à sua certeza quanto ao seu métier. O pintor de Brodósqui não hesitou em realizar a encomenda do governo brasileiro – a obra Guerra e Paz – a ser ofertada a ONU, contrariando as recomendações médicas que o proibiam de pintar por sintomas de intoxicação pelas tintas. Diante desses elementos explorarei as concepções merleau-pontyanas tendo como pano de fundo a vida e a obra desse expoente artista brasileiro.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

poeminha fenomenológico

meus amores, a fenomenologia em poema do pessoa...

O guardador de rebanhos
...                               

II - O Meu Olhar

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender ...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...

quarta-feira, 7 de maio de 2014

O museu é a historicidade da morte...

esse e outras temas são abordados pelo o artigo do professor Furlan "Arte, linguagem e expressão na filosofia de Merleau-Ponty". O texto está realmente muito bom, trabalha com questões centrais para nossa disciplina de Arte e Cultura. Relaciona a concepção da arte em Merleau-Ponty com a situação cultural em que ela nasce, sua relação com a gestualidade do artista, retirando a discussão do paradigma da mimesis, mas sem a colocar numa idealidade ou idealismo de um dever do gênio instaurador de cultura. Enfim, finalmente lembrei de disponibilizá-lo para vocês, assim como disponibilizar a obra "Fenomenologia da percepção", para quem tiver interesse!

Abraços

sábado, 1 de março de 2014

Arte e cultura - Agora é que são elas!

Povo, para nossa discussão semestral creio cada vez mais que a obra do Leminski "Agora é que são elas" vai ser um excelente ponto de intersecção. Ele trata muito bem desse sujeito fragmentado da pós-modernidade (que é muito importante para compreender a questão das identidades culturais em Hall), e também dessa construção da identidade que não é mais fornecida pela autonomia subjetiva. Por isso, gostaria de incluí-lo entre as nossas referências básicas. O texto já pode ser consultado aqui. Abaixo deixo o trecho de um artigo em que estou trabalhando, sobre a relação desse texto com o pensamento de Merleau-Ponty:

[...]
Merleau-Ponty visa superar a dicotomia entre o “natural” e o “cultural”. Para ele, só haveriam signos naturais se pudéssemos falar em “estados de consciência” aos quais a organização anatômica de nosso corpo, fizesse corresponder gestos definidos. Isso, entretanto, não existe e os gestos emocionais variam de cultura para cultura, a diferença das mímicas para expressar os sentimentos corresponde a uma diferença das emoções, não só o gesto, mas também o modo de acolher a situação é diferente. Trata-se do modo como se faz uso do corpo, que pode até ser da mesma estrutura, mas, não quer dizer que no equipamento psicofisiológico haja uma natureza humana dada, como ocorre no mundo dos instintos. Para Merleau-Ponty, o uso que o homem fará de seu corpo transcende o corpo enquanto ser simplesmente biológico. Os sentimentos e suas condutas são tão inventados quanto as palavras. Não dá para sobrepor no homem, comportamentos “naturais” e um mundo cultural fabricado, já que, nele, tudo é natural e tudo é fabricado, toda palavra e conduta devem algo ao ser biológico e desvia às condutas vitais de sua direção.

[...]
De um modo geral, suas obras em poesia ou em prosa abraçam o desafio posto à literatura a ponto de vir se tornar um estilo de transgressão violenta quanto ao próprio uso da linguagem. É o que ganha evidência, em especial, um de seus mais importantes e expressivos trabalhos, o romance Agora é que são elas. Neste parece ser possível encontrar até mesmo aquela dublagem aludida por Merleau-Ponty entre a fala falada/fala falante. Com efeito, já na contracapa, a obra declara tratar-se de “Ficção, re-ficção, uma história que desvenda o processo de todas as histórias, AGORA É QUE SÃO ELAS, uma novela com começo, meio e fim (não necessariamente nessa ordem, é claro).” Isso porque, justamente, um dos seus personagens, o Dr. Propp, a certa altura declara ter descoberto

[...] que todas as histórias, no fundo, constituem UMA SÓ HISTÓRIA. E [que] aplicou-se a descobrir a cadeia de constantes, a lei lógica e matemática que rege a geração dos enredos, o vertiginoso movimento das constelações que constituem uma intriga. Todo entrecho, para ele, reduz-se à combinação de algumas funções básicas [...] (LEMINSKI, 1984, p. 12).

O que essa passagem mostra é o quanto a expressão literária de tendência da fala falada recai no esquema em que é reconhecida e acolhida como uma “verdade”, em virtude da ilusão de que sempre foi assim. É como se o momento linguageiro de instauração de sentido fosse cristalizado e permanecesse retido, de modo a atuar no presente como uma espécie de fundo desde onde os sujeitos operam. E é por isso que o narrador da obra, seu paciente, pode declarar: “Era confortador. E era apavorante. Gostoso saber que você pertencia a uma lógica maior que você, um fundo contra o qual tua figura se projetava. Mas eu me cagava de medo de saber que viver, então, era só isso, e assim, e não de outra forma.” (LEMINSKI, 1984, p. 13). Assim, é somente num momento em que se viola esse sentido instituído, re-significando por meio de uma operação linguageira o sentido dos gestos, dos comportamentos, das falas é que a cultura se projeta em direção a novas tendências. Ou seja, a o mundo cultural é incorporado por novos comportamentos, novos valores que, todavia, logo recairão no esquema das funções do Dr. Propp. O que este primeiro insight visa, enfim, é, mais uma vez, um registro do quanto a literatura de Leminski revive aquele movimento expressivo da linguagem[1] retratado por Merleau-Ponty entre a fala falante e fala falada.
[...]
Num outro trecho anterior da obra, Leminski também já expressara intensamente o drama de que o “real”, isto é, a objetividade na qual se insere nosso corpo material impõe a nossa existência naquilo que o dr. Propp, analista do personagem narrador, entendia como cura: “Propp não. Ele era médico. Queria curar. Quer dizer, dizer NÃO ao real, que quer a doença. Não à inexorável lógica última e suprema de todas as coisas e de todos os processos, aquela coisa que quer que a pedra caia quando jogada pra cima, o que quer que seja que quer que as flores nasçam na primavera e no inverno a gente tenha que usar cinco (ímpar!) roupas sobre o peito” (LEMINSKI, 1984, p. 12). O que se descobrirá na sequência do texto, e que também o narrador leminskiano descobre num dado momento, é que mesmo o “real” é, em verdade, uma apropriação linguística , isto é, uma expressão que retoma o mundo e o corpo desde a fala enquanto um comportamento.



[1] Na publicação de Causeries (coletânia de conferências encomendadas pela Rádio Nacional Francesa e transmitidas pela Rede Programa Nacional de Radiodifusão Francesa, em 1948), Merleau-Ponty diz que na literatura, a tarefa do poeta (apoiando-se em Mallarmé) é “[...] substituir a designação corrente das coisas, que as dá como ‘bem conhecidas’, por um gênero de expressão que nos descreve a estrutura essencial da coisa e nos força assim a entrar nela” (MERLEAU-PONTY, 2002, p. 59), afirma ainda que “um romance bem-sucedido existe não como soma de ideias ou de teses, mas à maneira de uma coisa sensível e como uma coisa em movimento que se trata de perceber em seu desenvolvimento temporal, cujo ritmo se trata de associarmos e que deixa na lembrança não um conjunto de ideias, mas antes o emblema e o monograma dessas ideias” (Idem, op.cit., p. 60-61).


domingo, 20 de outubro de 2013

Estética e Crítica da arte - trabalho e recados

Queridxs,

Na aula passada encerramos a discussão sobre Kant com a leitura do artigo "Três dimensões espaciais da estética de Kant" de Fiona Hughes. Um artigo bem interessante que nos fala do espaço figurativo do objeto belo (este que ele efetivamente ocupa no mundo), do espaço mental (este da reflexão causada no juízo de gosto) e do espaço social ou de comunicabilidade (este da discussão sobre o belo). Ela encerra o artigo relacionando estas dimensões com a arte. Além de esclarecer o pensamento kantiano, o artigo também nos ajuda a compreender o "espaço da crítica" garimpado, por assim dizer, com a sua concepção de juízo de gosto. Minha proposta para uma das avaliações é que vocês escolham uma das duas exposições abaixo indicadas e redijam um pequeno texto crítico acerca delas. Depois de feito o exercício, procurem refletir em que medida a possibilidade de discussão e/ou interpretação da obra se enquadra ou não na proposta de Fiona.

Exposições:

http://destaquecatarina.com.br/noticias/cultura/3710/alianca-francesa-expoe-esculturas-de-nani-isoppo

http://floripacult.com/2013/10/10/cor-galeria-recebe-exposicao-criancando-dos-artistas-zenk-dudas-e-rossi/

Além disto, vocês deverão produzir um artigo sobre algum dos textos utilizados ao longo do semestre, fiquem a vontade para relacionar com artistas e trabalhos de vossa preferência! Data limite de entrega: 22/11.

LEMBRO QUE NA PRÓXIMA SEXTA-FEIRA 25/10, NÃO HAVERÁ AULA, por favor avisem aos colegas!

Enquanto isso vocês já podem ler o texto da próxima aula: "A dúvida de Cézanne" de Merleau-Ponty, ele já se encontra disponível aqui.

Abraços e até!

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Pinceladas entre Ponty e Magritte ...

Não sei até que ponto a coleção da editora Civilização Brasileira sobre os artistas é a melhor fonte de interpretação de obras disponível (ao menos é ótimo ter a reprodução das imagens impressas), mas revisitando aquela dedicada ao surrealista (ou quase-surrealista?!?) René Magritte, encontrei algumas interpretações (explicações) de sua obra bem próximas (ao menos conceitualmente) da definição merleau-pontyana de obra que pincelamos entender em nosso primeiro encontro. Abaixo algumas citações sobre:

"Em meados dessa década [primeira do século XX], Magritte decide renunciar à complacência da pintura tradicional com os contrastes de cor e com as oposições de estilo para representar exatamente os objetos segundo sua fria aparência. A coluna vertebral de sua obra assenta-se sobre o achado de relações insuspeitas entre eles como fonte de efeitos poéticos, fonte essa da qual nunca se afastará ao longo de sua carreira." 

Deslocar os objetos de seus locais habituais é para Magritte o recurso para gerar efeitos poéticos sobre o cotidiano:

"'Em meus quadros, os objetos situam-se em lugares onde nunca foram encontrados'. [...] Segundo suas próprias palavras, deve-se fazer com que objetos familiares 'gritem', e para isto é necessário que seja alterada a ordem de seus relacionamentos habituais"

Fazer "pensar de uma maneira distinta do habitual" seria a função da pintura na concepção de Magritte. Ele "[...] concebia a pinutura como um meio para revelar ideias e criar realidades cuja virtualidade não tem confirmação possível na experiência do cotidiano."

Para relembrar, vimos que em "A dúvida de Cézanne", Merleau-Ponty nos propõe as seguintes definições:

ž“A arte não é uma imitação nem por outro lado, uma fabricação segundo os votos do instinto e do bom gosto. É uma operação de expressão”
“Cézanne, segundo suas próprias palavras: escreve enquanto pintor o que ainda não foi pintado e o torna pintura de todo”
Artista: “aquele que fixa e torna acessível aos mais humanos dos homens o espetáculo de que participam sem perceber”
Obra: aquilo que nos permite “[...] Esquecermos as aparências viscosas, equívocas e, através delas, vamos direto às coisas que apresentam.”
“Um pintor como Cézanne, um artista, um filósofo, devem não somente criar e exprimir uma ideia, mas ainda despertar a experiências que vão enraizar em outras consciências”

Eu sabia que aquela minha infame referência ao surrealismo como um possível exemplo de definição de obra de arte merleau-pontyana não havia surgido do nada! Em todo caso é um assunto muito "em aberto" para nós, afinal, essa comparação me parece tão escancaradamente explícita que quase pode chegar a ser ingênua e, ademais, nos deixa desconfortáveis em relação a outros artistas e obras que não se definem conceitualmente dessa forma (pintura conceitual é uma expressão usada no texto da coleção para se referir ao trabalho de Magritte). A vermos...

A filosofia no Camarim, 1947

As relações perigosas
Isto não é um cachimbo
O tempo ameaçador, 1931-1932



Próxima aula: O texto do Marc Jimenez para a próxima aula já está disponível no xerox do CEART. O filme: "Moça com brinco de pérola" é um bom exemplo ficcional sobre a descrição que o autor nos fornece do surgimento dos conceitos de arte e de artista (bem como de um mercado da arte). Ele pode ser visto na íntegra on-line aqui! 

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Estética e crítica de arte

Plano em construção

sete assuntos por segundo
Ut picutra, poesis....
Horácio
   Parque que serve a pintura
a não ser quando apresenta
   precisamente a procura
daquilo que mais aparenta,
   quando ministra quarenta
enigmas vezes setenta?
(Paulo Leminski)

Ao se interpretar uma obra de arte, pelo menos dois elementos fundamentais estão em jogo: a obra e o espectador. Para que o segundo possa operar a reflexão interpretativa, supõe se já feito o trabalho crítico de identificação de um objeto como obra. O que nos permite, entretanto, dizer de um objeto que se trata de arte? E mais, quando começa a surgir a arte como aquilo que pode ser julgada/criticada?

Segundo Jimenez, o “crítico” ou o “árbitro das artes” é uma categoria que surge junto com a autonomia do artista, depois que ele deixa de ser um mero artesão (idade média) e passa ser o gênio proprietário da obra e do talento.

O nosso curso sobre Estética e Crítica de Arte começará com a leitura da obra "O que é estética?", de Marc Jimenez, para averiguarmos sua tese de quando a arte passa a ser um objeto passível de crítica. Quero com isso, estabelecer com vocês o surgimento desse tipo de posicionamento (a saber: o crítico) em relação ao objeto arte. (O texto e outros se encontra aqui)

O que constitui a crítica de arte? Para além de determinar quando há e quando não há arte, ela também supõe em algum momento alguma interpretação. A ideia é, portanto, depois desse primeiro momento de identificação do surgimento da atividade crítica, analisar também a definição de juízo de gosto e de belo de Kant, por se tratar, certamente, de um cânon para muito do que se fala em estética e crítica de arte contemporaneamente.

Posteriormente, poderemos, seguindo a perspectiva fenomenológica, estudar os critérios elencados pelo filósofo francês Maurice Merleau-Ponty em seu artigo A dúvida de Cézanne. Nele, Merleau-Ponty faz, o que poderíamos chamar de uma interpretação da pintura e do pintor, nos fornecendo elementos para identificar uma obra e um artista. Os critérios aí elencados poderão ser comparados com os da teoria da formatividade de Luigi Pareyson, que por seu turno, nos apresenta o que na sua concepção significa ler, interpretar o que quis dizer uma obra, uma vez que a classificamos com tal.


Por fim, algumas sugestões de leitura e discussão deverão seguir o caminho de avaliar a contemporânea crise na crítica de arte. Os textos ainda estão sendo coletados para esta tarefa.