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sexta-feira, 21 de março de 2014

despalavras: conceitos versus imagens! (e avisos)

Queridxs todxs xs alunxs!

Só para lembrar que me ausentarei na próxima semana, então todas as aulas foram canceladas. Todas as turmas já foram avisadas e já têm atividades previstas. Na próxima semana retornaremos normalmente.

Para turma de Estética e Crítica de Arte, está confirmado nossa visita ao museu O mundo ovo de Eli Heil. Ademais, na sequência da discussão que encerrou a nossa aula, segue um poema de Manoel de Barros que me parece relacionar muito bem a tensão entre as imagens (eikones) e os conceitos (noetas). Essa tensão pode ser medida e/ou mediada pela poesia (tomada aqui enquanto poeisis, isto é, enquanto atividade poética, de fabricação). Se Manoel está certo, a arte (poesia) de criar imagens, ícones, ou refazer a imagem do mundo de um modo despreocupado com a unidade incondicionada e vazia do conceito. O que vocês acham disso? Algo para pensar na próxima semana, quando estudaremos com mais afinco o conceito de mímeses (sobre isso, dar uma olhada aqui também)



Despalavra - Manoel de Barros

Hoje eu atingi o reino das imagens, o reino da despalavra.
Daqui vem que todas as coisas podem ter qualidades humanas.
Daqui vem que todas as coisas podem ter qualidades de pássaros.
Daqui vem que todas as pedras podem ter qualidade de sapo.
Daqui vem que todos os poetas podem ter qualidades de árvore.
Daqui vem que os poetas podem arborizar os pássaros.
Daqui vem que todos os poetas podem humanizar as águas.
Daqui vem que os poetas devem aumentar o mundo com suas metáforas.
Que os poetas podem pré -coisas, pré-vermes, podem pré-musgos.
Daqui vem que os poetas podem comprender o mundo sem conceitos.
Que os poetas podem refazer o mundo por imagens, por eflúvios, por afeto.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Estética e filosofia da Arte - O conceito de mímesis em Platão

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração
(Fernando Pessoa)

Queridxs, nas próximas aulas trabalharemos o conceito de mímesis em Platão. Segundo Cláudia Drucker*, Platão foi o primeiro filósofo da arte, por ter sido "[...] o primeiro a traçar uma distinção nítida entre a arte no sentido de 'ofício' (téchne) e arte (mímesis) no sentido em que falamos das belas-artes, dando a cada uma sua definição. Platão define as belas-artes como instâncias da imitação e como o inverso do verdadeiro saber." (p. 35)
A mimesis está submetida ao mundo sensível como sua cópia, seu simulacro, não constituindo portanto um conhecimento verdadeiro nem uma techne. Na polis ideal da “República” de Platão, a mimesis passa a ser julgada em função da transcendência efetivamente real das idéias. Trata-se de uma engenhosa e rigorosa fundamentação ontológica, na qual a arte, a fim de ganhar o direito de permanecer entre os cidadãos, deverá abrir mão de seu caráter polimorfo, assumir a finalidade de educar e assim, tornar-se uma techne.
Podemos suspeitar então, de que é assim que surge um dos primeiros pensamentos acerca da arte (estética) e quiça os primórdios da crítica de arte. Que a submete a censura, é verdade e sequer põe em causa sua autonomia, ou a do artista, mas que, a partir do triângulo: obra, arte e crítico que estamos trabalhando, oferece pela primeira vez o elo de ligação entre eles, a saber, o pensamento acerca da beleza e/ou acerca da finalidade da obra.
No caso da pintura e/ou da escultura eis como Platão a enquadra:
"No começo do livro final da República, Sócrates compara três tipos de criadores: o demiurgo divino, o marceneiro e o pintor. Tomemos por exemplo uma cama para explicar as diferenças entre a atividade de cada um. Há uma cama por si mesma, criada pelo demiurgo, em referência à qual toda a multiplicidade de camas é nomeada. É a Forma da cama. Ela não tem nem tamanho e nem figura definidos, não pode ser feita de nenhum material em particular, nem pertence a nenhum período ou estilo particular da história do mobiliário. Ela não pode ter nenhum traço visível, pois isto a tornaria novamente algo singular. A Forma da cama se define por oposição aos indivíduos e nunca se identifica com indivíduo nenhum, preservando sua universalidade deste modo, bem como sua heterogeneidade diante do sensível. Se ela tivesse qualquer característica individualizante, seria necessário que Deus criasse ainda uma outra, mais universal ainda e acima dela. Quando um marceneiro (o technítes, artesão) planeja fabricar uma cama, ele precisa concentrar-se sobre essa cama realíssima e esforçar-se com o auxílio do cálculo para fabricar uma cama que seja adequada ao uso. Pensemos agora na relação do artista com a cama. O pintor que apenas pinta a cama fabricada pelo marceneiro está duplamente distante da Forma da cama, ou cama em si, ou cama ideal. Como o pintor imita a cama do marceneiro, que já está a dois passos afastado da cama em si, ele se afasta três passos da cama em si: “aquele que está três graus afastado da natureza chama ‘imitador’” (Rep. 597e). (Lembremos que o grego antigo não conta a partir do zero, mas a partir do um, antes de o Ocidente introduzir o zero na aritmética.). Assim, as belas-artes, isto é, as imitações encontram-se “a uma distância de três graus da verdade” (Rep. 602c). As imitações são cópias de cópias de coisas verdadeiras." (DRUCKER, p. 38-39)

* No link com material da nossa disciplina encontra-se o livro de Estética elaborado por professora para os alunos do curso de licenciatura em filosofia à distância da UFSC.

Referência:
DRUCKER, Claudia Pellegrini. Estética. Florianópolis : FILOSOFIA/EAD/ UFSC, 2009.