Não
sei até que ponto a coleção da editora Civilização Brasileira sobre os artistas
é a melhor fonte de interpretação de obras disponível (ao menos é ótimo ter a
reprodução das imagens impressas), mas revisitando aquela dedicada ao
surrealista (ou quase-surrealista?!?) René Magritte, encontrei algumas
interpretações (explicações) de sua obra bem próximas (ao menos
conceitualmente) da definição merleau-pontyana de obra que pincelamos entender
em nosso primeiro encontro. Abaixo algumas citações sobre:
"Em meados dessa década [primeira do século
XX], Magritte decide renunciar à complacência da pintura tradicional com os
contrastes de cor e com as oposições de estilo para representar exatamente os
objetos segundo sua fria aparência. A coluna vertebral de sua obra assenta-se
sobre o achado de relações insuspeitas entre eles como fonte de efeitos
poéticos, fonte essa da qual nunca se afastará ao longo de sua carreira."
Deslocar
os objetos de seus locais habituais é para Magritte o recurso para gerar
efeitos poéticos sobre o cotidiano:
"'Em meus quadros, os objetos situam-se em
lugares onde nunca foram encontrados'. [...] Segundo suas próprias palavras,
deve-se fazer com que objetos familiares 'gritem', e para isto é necessário que
seja alterada a ordem de seus relacionamentos habituais"
Fazer
"pensar de uma maneira distinta do
habitual" seria a função da pintura na concepção de Magritte. Ele
"[...] concebia a pinutura como um
meio para revelar ideias e criar realidades cuja virtualidade não tem
confirmação possível na experiência do cotidiano."
Para
relembrar, vimos que em "A dúvida de Cézanne", Merleau-Ponty nos
propõe as seguintes definições:
“A arte não é uma imitação nem por outro
lado, uma fabricação segundo os votos do instinto e do bom gosto. É uma
operação de expressão”
“Cézanne, segundo suas próprias palavras:
escreve enquanto pintor o que ainda não foi pintado e o torna pintura de todo”
Artista:
“aquele que fixa e torna acessível aos
mais humanos dos homens o espetáculo de que participam sem perceber”
Obra: aquilo que nos permite “[...]
Esquecermos as aparências viscosas, equívocas e, através delas, vamos direto às
coisas que apresentam.”
“Um pintor como Cézanne, um artista, um
filósofo, devem não somente criar e exprimir uma ideia, mas ainda despertar a
experiências que vão enraizar em outras consciências”
Eu
sabia que aquela minha infame referência ao surrealismo como um possível
exemplo de definição de obra de arte merleau-pontyana não havia surgido do
nada! Em todo caso é um assunto muito "em aberto" para nós, afinal,
essa comparação me parece tão escancaradamente explícita que quase pode chegar
a ser ingênua e, ademais, nos deixa desconfortáveis em relação a outros
artistas e obras que não se definem conceitualmente dessa forma (pintura
conceitual é uma expressão usada no texto da coleção para se referir ao
trabalho de Magritte). A vermos...
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| A filosofia no Camarim, 1947 |
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| As relações perigosas |
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| Isto não é um cachimbo |
![]() |
| O tempo ameaçador, 1931-1932 |
Próxima aula: O texto do Marc Jimenez para a próxima aula já está disponível no xerox do CEART. O filme: "Moça com brinco de pérola" é um bom exemplo ficcional sobre a descrição que o autor nos fornece do surgimento dos conceitos de arte e de artista (bem como de um mercado da arte). Ele pode ser visto na íntegra on-line aqui!




Professora... Vc conseguiu achar aquele video no TED sobre julgamento moral? Se vc conseguiu pode me mandar por email? é jorgegustavok@gmail.com Muitoooooo Obrigadooooo.. ;D
ResponderExcluirOi Jorge! Acabei de publicar o link aqui no blog: http://filosofiaforadacaixa.blogspot.com.br/2013/08/os-valores-morais-sao-fixos.html
ExcluirAbraços!