segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Pinceladas entre Ponty e Magritte ...

Não sei até que ponto a coleção da editora Civilização Brasileira sobre os artistas é a melhor fonte de interpretação de obras disponível (ao menos é ótimo ter a reprodução das imagens impressas), mas revisitando aquela dedicada ao surrealista (ou quase-surrealista?!?) René Magritte, encontrei algumas interpretações (explicações) de sua obra bem próximas (ao menos conceitualmente) da definição merleau-pontyana de obra que pincelamos entender em nosso primeiro encontro. Abaixo algumas citações sobre:

"Em meados dessa década [primeira do século XX], Magritte decide renunciar à complacência da pintura tradicional com os contrastes de cor e com as oposições de estilo para representar exatamente os objetos segundo sua fria aparência. A coluna vertebral de sua obra assenta-se sobre o achado de relações insuspeitas entre eles como fonte de efeitos poéticos, fonte essa da qual nunca se afastará ao longo de sua carreira.

Deslocar os objetos de seus locais habituais é para Magritte o recurso para gerar efeitos poéticos sobre o cotidiano:

"'Em meus quadros, os objetos situam-se em lugares onde nunca foram encontrados'. [...] Segundo suas próprias palavras, deve-se fazer com que objetos familiares 'gritem', e para isto é necessário que seja alterada a ordem de seus relacionamentos habituais"

Fazer "pensar de uma maneira distinta do habitual" seria a função da pintura na concepção de Magritte. Ele "[...] concebia a pinutura como um meio para revelar ideias e criar realidades cuja virtualidade não tem confirmação possível na experiência do cotidiano."

Para relembrar, vimos que em "A dúvida de Cézanne", Merleau-Ponty nos propõe as seguintes definições:

žA arte não é uma imitação nem por outro lado, uma fabricação segundo os votos do instinto e do bom gosto. É uma operação de expressão
Cézanne, segundo suas próprias palavras: escreve enquanto pintor o que ainda não foi pintado e o torna pintura de todo
Artista: “aquele que fixa e torna acessível aos mais humanos dos homens o espetáculo de que participam sem perceber
Obra: aquilo que nos permite “[...] Esquecermos as aparências viscosas, equívocas e, através delas, vamos direto às coisas que apresentam.
Um pintor como Cézanne, um artista, um filósofo, devem não somente criar e exprimir uma ideia, mas ainda despertar a experiências que vão enraizar em outras consciências

Eu sabia que aquela minha infame referência ao surrealismo como um possível exemplo de definição de obra de arte merleau-pontyana não havia surgido do nada! Em todo caso é um assunto muito "em aberto" para nós, afinal, essa comparação me parece tão escancaradamente explícita que quase pode chegar a ser ingênua e, ademais, nos deixa desconfortáveis em relação a outros artistas e obras que não se definem conceitualmente dessa forma (pintura conceitual é uma expressão usada no texto da coleção para se referir ao trabalho de Magritte). A vermos...

A filosofia no Camarim, 1947

As relações perigosas
Isto não é um cachimbo
O tempo ameaçador, 1931-1932



Próxima aula: O texto do Marc Jimenez para a próxima aula já está disponível no xerox do CEART. O filme: "Moça com brinco de pérola" é um bom exemplo ficcional sobre a descrição que o autor nos fornece do surgimento dos conceitos de arte e de artista (bem como de um mercado da arte). Ele pode ser visto na íntegra on-line aqui

2 comentários:

  1. Professora... Vc conseguiu achar aquele video no TED sobre julgamento moral? Se vc conseguiu pode me mandar por email? é jorgegustavok@gmail.com Muitoooooo Obrigadooooo.. ;D

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    1. Oi Jorge! Acabei de publicar o link aqui no blog: http://filosofiaforadacaixa.blogspot.com.br/2013/08/os-valores-morais-sao-fixos.html
      Abraços!

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