Povo, para nossa discussão semestral creio cada vez mais que a obra do Leminski "Agora é que são elas" vai ser um excelente ponto de intersecção. Ele trata muito bem desse sujeito fragmentado da pós-modernidade (que é muito importante para compreender a questão das identidades culturais em Hall), e também dessa construção da identidade que não é mais fornecida pela autonomia subjetiva. Por isso, gostaria de incluí-lo entre as nossas referências básicas. O texto já pode ser consultado aqui. Abaixo deixo o trecho de um artigo em que estou trabalhando, sobre a relação desse texto com o pensamento de Merleau-Ponty:
[...]
Merleau-Ponty
visa superar a dicotomia entre o “natural” e o “cultural”. Para ele, só
haveriam signos naturais se pudéssemos falar em “estados de consciência” aos
quais a organização anatômica de nosso corpo, fizesse corresponder gestos
definidos. Isso, entretanto, não existe e os gestos emocionais variam de
cultura para cultura, a diferença das mímicas para expressar os sentimentos
corresponde a uma diferença das emoções, não só o gesto, mas também o modo de
acolher a situação é diferente. Trata-se do modo como se faz uso do corpo, que
pode até ser da mesma estrutura, mas, não quer dizer que no equipamento
psicofisiológico haja uma natureza humana dada, como ocorre no mundo dos instintos.
Para Merleau-Ponty, o uso que o homem fará de seu corpo transcende o corpo
enquanto ser simplesmente biológico. Os sentimentos e suas condutas são tão
inventados quanto as palavras. Não dá para sobrepor no homem, comportamentos
“naturais” e um mundo cultural fabricado, já que, nele, tudo é natural e tudo é
fabricado, toda palavra e conduta devem algo ao ser biológico e desvia às
condutas vitais de sua direção.
[...]
De um modo geral, suas
obras em poesia ou em prosa abraçam o desafio posto à literatura a ponto de vir
se tornar um estilo de transgressão violenta quanto ao próprio uso da
linguagem. É o que ganha evidência, em especial, um de seus mais importantes e
expressivos trabalhos, o romance Agora é
que são elas. Neste parece ser possível encontrar até mesmo aquela dublagem
aludida por Merleau-Ponty entre a fala falada/fala falante. Com efeito, já na
contracapa, a obra declara tratar-se de “Ficção, re-ficção, uma história que
desvenda o processo de todas as histórias, AGORA É QUE SÃO ELAS, uma novela com
começo, meio e fim (não necessariamente nessa ordem, é claro).” Isso porque,
justamente, um dos seus personagens, o Dr. Propp, a certa altura declara ter
descoberto
[...] que todas as histórias, no fundo,
constituem UMA SÓ HISTÓRIA. E [que] aplicou-se a descobrir a cadeia de
constantes, a lei lógica e matemática que rege a geração dos enredos, o
vertiginoso movimento das constelações que constituem uma intriga. Todo
entrecho, para ele, reduz-se à combinação de algumas funções básicas [...]
(LEMINSKI, 1984, p. 12).
O que essa passagem mostra é o quanto a
expressão literária de tendência da fala falada recai no esquema em que é
reconhecida e acolhida como uma “verdade”, em virtude da ilusão de que sempre
foi assim. É como se o momento linguageiro de instauração de sentido fosse
cristalizado e permanecesse retido, de modo a atuar no presente como uma
espécie de fundo desde onde os sujeitos operam. E é por isso que o narrador da
obra, seu paciente, pode declarar: “Era confortador. E era apavorante. Gostoso
saber que você pertencia a uma lógica maior que você, um fundo contra o qual
tua figura se projetava. Mas eu me cagava de medo de saber que viver, então,
era só isso, e assim, e não de outra forma.” (LEMINSKI, 1984, p. 13). Assim, é
somente num momento em que se viola esse sentido instituído, re-significando
por meio de uma operação linguageira o sentido dos gestos, dos comportamentos,
das falas é que a cultura se projeta em direção a novas tendências. Ou seja, a
o mundo cultural é incorporado por novos comportamentos, novos valores que,
todavia, logo recairão no esquema das funções do Dr. Propp. O que este primeiro
insight visa, enfim, é, mais uma vez,
um registro do quanto a literatura de Leminski revive aquele movimento
expressivo da linguagem[1]
retratado por Merleau-Ponty entre a fala falante e fala falada.
[...]
Num outro trecho anterior da obra, Leminski
também já expressara intensamente o drama de que o “real”, isto é, a
objetividade na qual se insere nosso corpo material impõe a nossa existência
naquilo que o dr. Propp, analista do personagem narrador, entendia como cura:
“Propp não. Ele era médico. Queria curar. Quer dizer, dizer NÃO ao real, que
quer a doença. Não à inexorável lógica última e suprema de todas as coisas e de
todos os processos, aquela coisa que quer que a pedra caia quando jogada pra
cima, o que quer que seja que quer que as flores nasçam na primavera e no
inverno a gente tenha que usar cinco (ímpar!) roupas sobre o peito” (LEMINSKI,
1984, p. 12). O que se descobrirá na sequência do texto, e que também o
narrador leminskiano descobre num dado momento, é que mesmo o “real” é, em
verdade, uma apropriação linguística , isto é, uma expressão que retoma o mundo e o corpo desde a fala enquanto um
comportamento.
[1] Na
publicação de Causeries (coletânia de
conferências encomendadas pela Rádio Nacional Francesa e transmitidas pela Rede
Programa Nacional de Radiodifusão Francesa, em 1948), Merleau-Ponty diz que na
literatura, a tarefa do poeta (apoiando-se em Mallarmé) é “[...] substituir a
designação corrente das coisas, que as dá como ‘bem conhecidas’, por um gênero
de expressão que nos descreve a estrutura essencial da coisa e nos força assim
a entrar nela” (MERLEAU-PONTY, 2002, p. 59), afirma ainda que “um romance
bem-sucedido existe não como soma de ideias ou de teses, mas à maneira de uma
coisa sensível e como uma coisa em movimento que se trata de perceber em seu
desenvolvimento temporal, cujo ritmo se trata de associarmos e que deixa na
lembrança não um conjunto de ideias, mas antes o emblema e o monograma dessas
ideias” (Idem, op.cit., p. 60-61).
