quarta-feira, 30 de setembro de 2009

descortinando os fenômenos originários...


Semana passada nos encontramos rapidamente, em função do colóquio “Filosofia da arte” e nada avançamos em nossa discussão, por isto nenhuma postagem nova se manifestou por aqui. Para amanhã, iniciaremos nossas deleitáveis divagações acerca de “A ‘atenção’ e o ‘juízo’”.

Cumprido promessa quase antiga, exponho abaixo minhas impressões acerca das conclusões do capítulo II. Espero com isso apenas dar algum fôlego a discussão sobre o problema do empirismo, de modo algum encerrá-la, além disso uma longínqua luz começa a se acender sobre nossa amada percepção...

Para iniciar o descortino dos fenômenos encobertos pelo excesso de teoria, nos valhamos da seguinte alegação acerca da ‘projeção de recordações’: “é apenas uma má metáfora que esconde um reconhecimento mais profundo já feito” (MERLEAU-PONTY, 2006, p. 44). Retoma-se com isso a idéia já vislumbrada em outros posts de que ‘o sentido é imanente ao sensível’. Já pudemos pressentir que o problema destas teorias criticadas na obra é o de procurar fora da percepção o que lhe dê unidade — sentido, em última instância —. É por isto que Ponty insiste em dizer que elas ‘criam’ aquilo que deveriam explicar. Qualquer teoria do sentido, já conta o sentido dado e uma explicação causal sempre ultrapassa o fato, buscando fora dele seu fundamento, sua condição de possibilidade, etc. Como não cair num regresso ao infinito assim? (supondo que quando encontrar o fundamento, ele também já estará dado, e suporá um terceiro, e assim por diante). Este é só um dos problemas de ordem metodológica que poderíamos elencar. Mas, deixemos estas lucrubações de lado, afinal, elas não deixarão de ser uma especulação vasta e artificiosa se não conseguirmos compreender como então se pode falar acerca da percepção e afinal o que ela é...
Bem, na esteira da projeção de recordações, a ilusão sofrida pela percepção encontra uma explicação aparentemente satisfatória (vide post anterior – “A associação ... II”). Entretanto, na mesma ilusão Merleau-Ponty encontra o gancho para validar a autonomia da percepção frente a memória, com efeito nos diz: “A ilusão nos engana justamente fazendo-se passar por uma percepção autêntica, em que a significação nasce no berço do sensível e não vem de outro lugar.” (2006, p. 45) Há uma interessante autonomia do ilusório aqui, assim como algumas de nossas experiência fazem sentido para nós as ‘compramos como verdadeiras’, outras têm o sentido de enganosas, e estas significações não lhes são atribuídas por algum processo externo.
Formidavelmente, se nos oferece enfim uma definição sem rodeios: a percepção é um texto originário, ela traz em si seu sentido (de modo algum se pense que isso encerraria nosso problema, ao contrário, mas, ao menos temos algum ponto de partida). Contrariamente ao que se afirmava nesta teoria empirista (sim, porque a projeção de recordações Merleau-Ponty atribui ao empirismo), o apelo a alguma recordação só é possível graças a percepção e caberia investigar como é que contamos com este horizonte de percepções passadas, acessadas mnemonicamente (e o buraco fica cada vez mais fundo! Vamos com calma, ok?).
Chamei de excesso aos desenvolvimentos teóricos, pois, eles mascaram e ocultam o que Ponty chama de ‘fenômenos originais’. O primeiro mencionado é o ‘mundo cultural’, que se oporia a ‘natureza’ ingenuamente considerada como o ‘mundo originário’, no qual basearíamos nossos construtos culturais, eminentemente humanos, pela potência que temos de nele nos projetarmos. Aparentemente, não teríamos porque duvidar de que nossa vida se passa no espaço humano, mas, graças às reflexões filosóficas, parte considerável dela (ao menos nossas ‘interpretações’ do natural) ficaria restrita ao mental. Sentença pontyana: o mundo humano assim considerado é nada mais que uma metáfora! Com o uso de metáforas queremos designar com uma coisa, uma outra coisa diferente da primeira, embora ambas devam guardar alguma semelhança entre si. Assim o mundo humano seria também uma espécie de mundo, mas não natural, não originário, e sim engendrado por estruturas, sendo a percepção uma delas. A proposta é então, visto que em aparência, não metaforizamos o mundo, levar a sério o aparente e considerar que essas ‘projeções’ não sejam postas externamente pelos humanos, mas já estejam nos objetos percebidos. Se incluirá aí, entre os objetos culturais, a própria natureza do empirismo, e o mundo verdadeiramente natural será, portanto, um dos fenômenos originários encobertos pela reflexão empirista. Desta perspectiva ele ultrapassa deveras esta natureza enquanto objeto dos experimentos científicos.
Merleau-Ponty encerra o capítulo prometendo para os próximos passos um “inventário do mundo” e eu me despeço perguntando: o que faremos com isso?

Piscadinhas :)

Um comentário:

  1. Elizia, como ja notaste, estou com grande dificuldade de comparecer aos nossos encontros de quinta à tarde. tive choques incontornaveis de horario e por isso não tenho mais ido. continuarei acompanhando as discussões por aqui, através das postagens. bons estudos pra vocês.
    cristiano.

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