resumo de proposta de comunicação a ser apresentada no XIV Simpósio de Filosofia Moderna e Contemporânea - UNIOESTE - campus Toledo.
A “Fenomenologia da Percepção” de Maurice Merleau-Ponty destaca, desde o prefácio, uma preocupação envolvendo o estatuto da reflexão filosófica. Em vários momentos o autor dá indícios de que existiria um modo adequado de realizá-la e um modo inadequado. De uma maneira geral, poder-se-ia afirmar que a autenticidade estaria garantida à medida que a reflexão admitisse seu começo irresoluto: ela só se inicia se houver um desconhecido, um irrefletido, de onde possa partir. Ora se este último pudesse ser totalmente abarcado, ou ainda abarcado de maneira equivalente entre o que era no início e como se configura no fim da reflexão, ela própria deixaria de existir e quiçá seria desnecessária desde o começo. Levando-se em consideração esta proposta de reflexão “situada” numa intimidade com um irrefletido ponto de partida, tendo em conta também a primordialidade da percepção para a fenomenologia merleau-pontyana, o objetivo deste trabalho será, primeiramente, o de analisar como o conceito de percepção sobrevive a esta reflexão, designada por ele como radical. Nela o mundo é compreendido como aquilo que percebemos, sendo a percepção opano de fundo sob o qual nossos atos acontecem. Ela não é em si mesma uma deliberação — o que lhe conferiria um sabor acentuadamente idealista — mas, é pressuposta pelos demais atos e pela ciência . Como mola propulsora desta investigação, começo por uma questão proeminente desde o início da leitura da referida obra, a saber: porque esta primazia da percepção? A resposta encontrada para tal questionamento, me conduz ao segundo tópico deste artigo: como Merleau-Ponty explica a ilusão, o engano que, muitas vezes nossas percepções nos indicam sofrer? Numa reflexão como a sua é certo que a percepção está fenomenologicamente assegurada de sua união indissolúvel com o mundo vivido e salvaguardada de reflexões delirantes que a estimam demais ou de menos (tais como as do empirismo e do intelectualismo criticadas por Merleau-Ponty), mas também não se deixa de lhe conferir certa autonomia. Isto parece nos induzir a uma desconfortável situação: indica-se aqui que não haveria equívoco na percepção e tudo nela apreendido seria verdadeiro. Para compreender o alcance deste problema, se faz importante esclarecer o que usualmente se toma por erro ou ilusão. É o que procuro fazer, assim como, demonstrar, na medida do possível, como a fenomenologia da percepção pode resolver este impasse. Como indício de resposta, saliento que, de um modo geral, a ilusão ou o erro é da ordem do juízo. No momento da percepção de um objeto é inegável que se perceba algo, e nem mesmo a dúvida metódica cartesiana pretendeu negar esta evidência. Só quando me volto sobre esta percepção, seja via juízo ou via memória, é que costumo dizer que fui enganado. Independentemente desta constatação, que a rigor é sempre posterior, Merleau-Ponty garante a autonomia da ilusão — uma novidade em fenomenologia — ao afirmar que a percepção já se constitui como tal para posterior predicação de falsidade no juízo. A percepção do campo fenomênico já nasce com sentido, mas não o de um juízo nele ‘aplicado’, e sim o de um texto sensível, no qual as significações são indissociáveis das percepções.
A “Fenomenologia da Percepção” de Maurice Merleau-Ponty destaca, desde o prefácio, uma preocupação envolvendo o estatuto da reflexão filosófica. Em vários momentos o autor dá indícios de que existiria um modo adequado de realizá-la e um modo inadequado. De uma maneira geral, poder-se-ia afirmar que a autenticidade estaria garantida à medida que a reflexão admitisse seu começo irresoluto: ela só se inicia se houver um desconhecido, um irrefletido, de onde possa partir. Ora se este último pudesse ser totalmente abarcado, ou ainda abarcado de maneira equivalente entre o que era no início e como se configura no fim da reflexão, ela própria deixaria de existir e quiçá seria desnecessária desde o começo. Levando-se em consideração esta proposta de reflexão “situada” numa intimidade com um irrefletido ponto de partida, tendo em conta também a primordialidade da percepção para a fenomenologia merleau-pontyana, o objetivo deste trabalho será, primeiramente, o de analisar como o conceito de percepção sobrevive a esta reflexão, designada por ele como radical. Nela o mundo é compreendido como aquilo que percebemos, sendo a percepção o
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