quarta-feira, 19 de maio de 2010

A "razão" na filosofia

Deixo aqui algumas palavras de minha compreensão despretensiosa da leitura iniciante deste autor deveras instigante....

Et quoi?! Não é que o primeiro aforismo discutido de “O crepúsculo dos ídolos” tem as mesmas tintas de nossa já encaminhada discussão pontyana — o corpo (!), os sentidos, a razão —, obviamente pintadas pelo gênio notadamente irônico de Nietzsche...

Ultrapassando em muito os limites de um exame meramente epistemológico, Nietzsche detecta os preconceitos morais das oposições sentido e razão ou aparência e verdade, deixando muito espaço para a reflexão sobre as conseqüências de sua crítica voraz ao primado da razão e da verdade (enquanto o que se opõe a aparência)!
Com uma tonalidade que posteriormente na história da filosofia reconheceremos em Heidegger (só para contextualizar com as discussões em sala de aula), afirma que a vida é ameaçada pela idolatria do conceito: crença desesperada no ente, tentativa de fixar o movimento para tentar encontrá-lo, pois os sentidos, estes enganadores, nos impediriam de ver (irônico não? Ver ....) o verdadeiro mundo. Uma das conseqüências deste prejuízo: o corpo é tomado por uma “idéia fixa” dos sentidos que deve ser banida. E facilmente detectamos na história da filosofia o quão séria é esta constatação, mesmo o empirismo pouco se importa com ele, visto que sua preocupação é a de decifrar as qualidades primárias e secundárias que compõe nossa percepção das coisas. Tudo o que tem a ver com a “sensualidade” deve ser sublimado! É preciso encontrar, dizem os filósofos, uma unidade: a substância! E conceitos como este que, de fato, só surgem depois de toda esta confusão armada, são, para estes “idólatras do conceito” os primeiros, as causas — não sujeitas ao devir — de tudo o que muda. Entendem eles que por trás da mudança, que é erro, deve haver a identidade do que dura no devir, d’onde por um lado chegamos ao conceito de “Deus” como causa em si e ens realissimun e por outro, pela metafísica ludibriosa da linguagem à idéia de Eu, como agente da vontade que reconhecemos no mundo, onde se assentaria a razão. Esta como causa está na ordem do não sujeito à corrupção e não poderia provir do empírico, deverá então ser originária de um mundo superior. E, como bem nos prova a conclusão indubitável do procedimento metodológico cartesiano, a tese do “Eu” tem a gramática e a lógica a seu favor! O problema de ordem moral, para além das conseqüências epistemológicas, é anterior, todo esta escamoteação do devir e com ele dos sentidos e do corpo tem a ver com a incapacidade de apreendê-lo, de dominá-lo, assim, no lugar de aceitá-lo ele é negativamente valorado!

Mas, Nietzsche nos propõe uma inversão de tudo isso: os sentidos não mentem, mentira é a unidade, a coisidade, a substância e a razão é a causa de neles introduzirmos esta mentira. O aparente é o verdadeiro! Nenhuma outra realidade é demonstrável, o assim chamado “verdadeiro ser” das coisas pela tradição é na verdade o nada. Esta cisão do mundo em “aparente e verdadeiro” é que é uma “decadência”! Com isso também, ainda que o autor não se pronuncie sobre, sucumbe idéia da substância pensante, visto que ela é originada no preconceito da identidade que o real não suporta.

Algumas questões para reflexão: e nós, podemos suportar tal destruição de nossos preconceitos? Sobrevivemos se não nos reconhecemos na identidade de duração de nossas vidas? Por fim: somos como o “artista trágico” capazes de dizer “sim a todo o misterioso e terrível”? Como fazer filosofia sem nossas velhas ferramentas? ...

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