sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Estética e filosofia da Arte - O conceito de mímesis em Platão

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração
(Fernando Pessoa)

Queridxs, nas próximas aulas trabalharemos o conceito de mímesis em Platão. Segundo Cláudia Drucker*, Platão foi o primeiro filósofo da arte, por ter sido "[...] o primeiro a traçar uma distinção nítida entre a arte no sentido de 'ofício' (téchne) e arte (mímesis) no sentido em que falamos das belas-artes, dando a cada uma sua definição. Platão define as belas-artes como instâncias da imitação e como o inverso do verdadeiro saber." (p. 35)
A mimesis está submetida ao mundo sensível como sua cópia, seu simulacro, não constituindo portanto um conhecimento verdadeiro nem uma techne. Na polis ideal da “República” de Platão, a mimesis passa a ser julgada em função da transcendência efetivamente real das idéias. Trata-se de uma engenhosa e rigorosa fundamentação ontológica, na qual a arte, a fim de ganhar o direito de permanecer entre os cidadãos, deverá abrir mão de seu caráter polimorfo, assumir a finalidade de educar e assim, tornar-se uma techne.
Podemos suspeitar então, de que é assim que surge um dos primeiros pensamentos acerca da arte (estética) e quiça os primórdios da crítica de arte. Que a submete a censura, é verdade e sequer põe em causa sua autonomia, ou a do artista, mas que, a partir do triângulo: obra, arte e crítico que estamos trabalhando, oferece pela primeira vez o elo de ligação entre eles, a saber, o pensamento acerca da beleza e/ou acerca da finalidade da obra.
No caso da pintura e/ou da escultura eis como Platão a enquadra:
"No começo do livro final da República, Sócrates compara três tipos de criadores: o demiurgo divino, o marceneiro e o pintor. Tomemos por exemplo uma cama para explicar as diferenças entre a atividade de cada um. Há uma cama por si mesma, criada pelo demiurgo, em referência à qual toda a multiplicidade de camas é nomeada. É a Forma da cama. Ela não tem nem tamanho e nem figura definidos, não pode ser feita de nenhum material em particular, nem pertence a nenhum período ou estilo particular da história do mobiliário. Ela não pode ter nenhum traço visível, pois isto a tornaria novamente algo singular. A Forma da cama se define por oposição aos indivíduos e nunca se identifica com indivíduo nenhum, preservando sua universalidade deste modo, bem como sua heterogeneidade diante do sensível. Se ela tivesse qualquer característica individualizante, seria necessário que Deus criasse ainda uma outra, mais universal ainda e acima dela. Quando um marceneiro (o technítes, artesão) planeja fabricar uma cama, ele precisa concentrar-se sobre essa cama realíssima e esforçar-se com o auxílio do cálculo para fabricar uma cama que seja adequada ao uso. Pensemos agora na relação do artista com a cama. O pintor que apenas pinta a cama fabricada pelo marceneiro está duplamente distante da Forma da cama, ou cama em si, ou cama ideal. Como o pintor imita a cama do marceneiro, que já está a dois passos afastado da cama em si, ele se afasta três passos da cama em si: “aquele que está três graus afastado da natureza chama ‘imitador’” (Rep. 597e). (Lembremos que o grego antigo não conta a partir do zero, mas a partir do um, antes de o Ocidente introduzir o zero na aritmética.). Assim, as belas-artes, isto é, as imitações encontram-se “a uma distância de três graus da verdade” (Rep. 602c). As imitações são cópias de cópias de coisas verdadeiras." (DRUCKER, p. 38-39)

* No link com material da nossa disciplina encontra-se o livro de Estética elaborado por professora para os alunos do curso de licenciatura em filosofia à distância da UFSC.

Referência:
DRUCKER, Claudia Pellegrini. Estética. Florianópolis : FILOSOFIA/EAD/ UFSC, 2009.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Arte e Cultura

Abaixo segue um trecho da Marilena Chauí, a escrita é simples pois foi pensado para alunos do ensino médio, mas nem por isso as reflexões deixam a desejar em importância. Ele nos ajudará a inaugurar as reflexões do curso Arte e Cultura (mas servirá também para os alunos de Estado e Sociedade, se bem se lembram de algumas questões que apareceram na nossa aula de ontem). Eis alguns conceitos que iremos discutir ao longo do semestre:
Portinari - Café, 1944

Natureza versus Cultura?
Cultura igual a Civilização?
Culto versus Inculto?
Arte simbolo da Cultura?
Arte reflexo da Cultura?
Arte separada da Cultura?
Capital cultural
Poder simbólico



Natureza humana? - Marilena Chauí

É muito comum ouvirmos e dizermos frases do tipo: “chorar é próprio da natureza humana” e “homem não chora”. Ou então: “é da natureza humana ter medo do desconhecido” e “ela é corajosa, não tem medo de nada”. Também é comum a frase: “as mulheres são naturalmente frágeis e sensíveis, porque nasceram para a maternidade”, bem como esta outra: “fulana é uma desnaturada, pois não tem o menor amor aos filhos”.
Com freqüência ouvimos dizer: “os homens são fortes e racionais, feitos para o comando e a vida pública”, donde, como conseqüência, esta outra frase: “fulana nem parece mulher. Veja como se veste! Veja o emprego que arranjou!”. Não é raro escutarmos que os negros são indolentes por natureza, os pobres são
naturalmente violentos, os judeus são naturalmente avarentos, os árabes são naturalmente comerciantes espertos, os franceses são naturalmente interessados em sexo e os ingleses são, por natureza, fleumáticos.
Frases como essas, e muitas outras, pressupõem, por um lado, que existe uma natureza humana, a mesma em todos os tempos e lugares e, por outro lado, que existe uma diferença de natureza entre homens e mulheres, pobres e ricos, negros, índios, judeus, árabes, franceses ou ingleses. Haveria, assim, uma
natureza humana universal e uma natureza humana diferenciada por espécies, à maneira da diferença entre várias espécies de plantas ou de animais. 
Em outras palavras, a Natureza teria feito o gênero humano universal e as espécies humanas particulares, de modo que certos sentimentos, comportamentos, idéias e valores são os mesmos para todo o gênero humano (são naturais para todos os humanos), enquanto outros seriam os mesmos apenas para cada espécie (ou raça, ou tipo, ou grupo), isto é, para uma espécie determinada. Dizer que alguma coisa é natural ou por natureza significa dizer que essa coisa existe necessária e universalmente como efeito de uma causa necessária e universal. Essa causa é a Natureza. Significa dizer, portanto, que tal coisa não depende da ação e intenção dos seres humanos. Assim como é da natureza dos corpos serem governados pela lei natural da gravitação universal, como é da natureza da água ser composta por H2O, ou como é da natureza da abelha
produzir mel e da roseira produzir rosas, também seria por natureza que os homens sentem, pensam e agem. A Natureza teria feito a natureza humana como gênero universal e a teria diversificado por espécies naturais (brancos, negros, índios, pobres, ricos, judeus, árabes, homens, mulheres, alemães, japoneses, chineses, etc.).
Que aconteceria com as frases que mencionamos acima se mostrássemos que algumas delas são contraditórias e que outras não correspondem aos fatos da realidade? Assim, por exemplo, dizer que “é natural chorar na tristeza” entra em contradição com a idéia de que “homem não chora”, pois, se isso fosse verdade, o homem teria que ser considerado algo que escapa das leis da Natureza, já que chorar é considerado natural. O mesmo acontece com a frase sobre o medo e a coragem: nelas é dito que o medo é natural, mas que uma certa pessoa é admirável porque não tem medo. Aqui, a contradição é ainda maior do que a anterior, uma vez que parecemos ter admiração por quem, misteriosamente, escapa da lei da Natureza, isto é, do medo.
Em certas sociedades, o sistema de alianças, que fundamenta as relações de parentesco sobre as quais a comunidade está organizada, exige que a criança seja levada, ao nascer, à irmã do pai, que deverá responsabilizar-se pela vida e educação da criança. Em outras, o sistema de parentesco exige que a criança seja entregue à irmã da mãe. Nos dois casos, a relação da criança é estabelecida com a tia por aliança e não com a mãe biológica. Se assim é, como fica a afirmação de que as mulheres amam naturalmente os seus filhos e que é desnaturada a mulher que não demonstrar esse amor?
Em certas sociedades, considera-se que a mulher é impura para lidar com a terra e com os alimentos. Por esse motivo, o cultivo da terra, a alimentação e a casa ficam sob os cuidados dos homens, cabendo às mulheres a guerra e o comando da comunidade. Se assim é, como fica a frase que afirma que o homem foi feito pela Natureza para o que exige força e coragem, para o comando e a guerra, enquanto a mulher foi feita pela Natureza para a maternidade, a casa, o trabalho doméstico, as atividades de um ser frágil e sensível?
Os historiadores brasileiros mostram que, por razões econômicas, a elite dominante do século XIX considerou mais lucrativo realizar a abolição da escravatura e substituir os escravos africanos pelos imigrantes europeus. Essa decisão fez com que o mercado de trabalho fosse ocupado pelos trabalhadores
brancos imigrantes e que a maioria dos escravos libertados ficasse no desemprego, sem habitação, sem alimentação e sem qualquer direito social, econômico e político. Em outras palavras, foram impedidos de trabalhar e foram mantidos sem direitos, tais como viviam quando estavam no cativeiro. Além disso, sabe-se que quando os colonizadores instituíram a escravidão e trouxeram os africanos para as terras da América, fizeram tal escolha por considerarem que os negros possuíam grande força física, grande capacidade de trabalho e muita inteligência para realizar tarefas com objetos técnicos como o engenho de açúcar. Se assim é, se a escravidão foi instituída por causa da grande capacidade e inteligência dos africanos para o trabalho da agricultura, se a abolição foi realizada por ser mais lucrativo o uso da mão-de-obra imigrante para um certo tipo de agricultura (o café) e para a indústria, como fica a afirmação de que a Natureza fez os africanos indolentes, preguiçosos e malandros?
Poderíamos examinar cada uma das frases que dizemos ou ouvimos em nosso cotidiano e que naturalizam os seres humanos, naturalizam comportamentos, idéias, valores, formas de viver e de agir. Veríamos como, em cada caso, os fatos desmentem tal naturalização. Veríamos como os seres humanos variam em conseqüência das condições sociais, econômicas, políticas, históricas em que vivem. Veríamos que somos seres cuja ação determina o modo de ser, agir e pensar e que a idéia de um gênero humano natural e de espécies humanas naturais não possui fundamento na realidade. Veríamos – graças às ciências humanas e à Filosofia – que a idéia de natureza humana como algo universal, intemporal e existente em si e por si mesma não se sustenta cientificamente, filosoficamente e empiricamente. Por quê? Porque os seres humanos são
culturais ou históricos. (CHAUÍ, M. Convite à Filosofia - p. 367-369)

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

O conhecimento em Aristóteles

“Todos os homens tem por natureza o desejo de conhecer [...] Por natureza seguramente os animais são dotados de sensação, mas nuns da sensação não se gera a memória e noutros gera-se. Por isto estes são mais inteligentes e mais aptos a aprender do que os que são incapazes de recordar. Inteligentes pois, mas sem possibilidade de aprender são todas os que não podem captar os sons, como as abelhas e outras espécies de animais. Pelo contrário,  têm faculdade de aprender todos os seres que além de memória, são providos também deste sentido. Os outros [animais] vivem portanto de imagens e recordações e de experiência pouco possuem. Mas, a espécie humana [vive] também de artes e raciocínios. É da memória que deriva aos homens a experiência: pois as recordações repetidas de uma mesma coisa possuem o efeito de uma única experiência , e a experiência quase se parece com a ciência e a arte.  Na realidade porém, ciência e arte vêm aos homens por intermédio da experiência, porque a experiência, como afirma polos, e bem, criou a arte, e a inexperiência o acaso. E a arte aparece quando, de um complexo de noções experimentadas, se exprime um único juízo universal dos casos semelhantes. [...] E isto porque a experiência é um conhecimento de singulares e a arte, dos universais; e, por outro lado, porque as operações e as gerações todas dizem respeito ao singular. [....] No entanto, nós julgamos que há mais saber e conhecimento na arte do que na experiência, e consideramos os homens de arte mais sábios que os empíricos [...]. Isto porque uns conhecem as causas e os outros não. Com efeito, os empíricos sabem o “quê”, mas não sabem o “porquê”; ao passo que os outros sabem o “porquê” e a causa. Por isto nós pensamos que os mestres-de-obras, em todas as coisas são mais apreciáveis e sabem mais que os operários, pois conhecem as causas do que se faz, enquanto estes, à semelhança de certos seres inanimados, agem, mas sem saberem o que fazem tal como o fogo [quando] queima. Os seres inanimados executam, portanto, cada uma das suas funções em virtude de uma certa natureza que lhes é própria, e os mestres pelo hábito. Não são, portanto, mais sábios [os mestres] por terem aptidão prática, mas pelo fato de possuírem a teoria e conhecerem as causas.” (ARISTÓTELES, A metafísica, Livro I)

Filosofia e ética - Unidade 1 - Teoria do conhecimento

Queridxs,

Hoje conversamos rapidamente sobre a primeira unidade do nosso programa que visa discutir um pouco sobre o que é conhecimento, como ele é possível, etc. Acima segue o trecho da obra de Aristóteles que leremos juntxs na próxima aula. Antes só quero deixar aqui um link, com um pequeno esclarecimento sobre aquele exemplo que aventei do "Bóson de Higgs', por ser compreendido como "a partícula de Deus", ele põe em cheque alguns limites anteriormente estabelecidos para o conhecimento humano. Até então a ciência tinha aprendido que as questões metafísicas e/ou teológicas deveriam ser deixadas de lado de sua investigação. Não sei até que ponto se pode dizer que essa tese ou classificação abala esta convicção, mas parece que sim. O que vocês acham?
Em todo caso, leiam abaixo um trecho de uma entrevista concedia a Revista Veja, por Fabiola Gianotti. Ela esteve a frente das pesquisas do LHC, maior acelerador de partículas do mundo que encontrou provas da existência do tal bóson (que parece ter sido já previsto por alguma teoria anteriormente). Ela concorre ao prêmio nobel por isso...  Ela diz de uma maneira mais clara o que tentei por em discussão com vocês hoje, acerca do papel da ciência, finalidade, liberdade, arte, etc...

veja: nem sempre as pessoas conseguem relacionar os resultados práticos com as pesquisas básicas. É assim mesmo?
fabíola: As pesquisas de fundamentos científicos são o combustível que acelera o progresso da humanidade. Quando uma das várias perguntas que fazemos na ciência é respondida, tudo muda para a civilização. O Higgs foi revelado no dia 4 de julho de 2012. Isso não quer dizer que no dia 4 a revolução a que deu início foi sentida por cada pessoa. É algo que demora décadas, mas que, quando compreendemos o que ocorreu, entendemos quanto foi fundamental para nós. A melhor maneira de entender esse pilar da humanidade é olhar para o passado. Quando o físico inglês Joseph Jonh Thomson descobriu a existência de elétrons, partículas fundamentais para a explicar os átomos, ao observá-los em laboratório, em 1897, nada mudou em seu mundo, em sua cidade ou em seu bairro no dia seguinte ao achado. Ele não tinha ideia de que isso seria depois a base para gerar energia pelo mundo, para a existência de televisores, para mudar a maneira como vivemos. Em dez, vinte ou cinquenta anos, cientistas farão um raciocínio parecido tendo como começo o bóson de Higgs e como ele nos transformou. Por fim, a terceira forma como as descobertas mudam nossa vida exige uma abordagem filosófica. Conhecer e compreender as regras da natureza é dever e direito do homem como ser pensante. O cérebro nos mostra instintiva e racionalmente que queremos mais conhecimento. Nesse enfoque a ciência vira irmã da arte. Para financiar artistas, vamos pensar sobre qual é a finalidade prática de pinturas e músicas? De forma alguma. Apoiamos a arte e a ciência por serem as expressões máximas do ser humano.

Abraços e um bom carnaval!
:)