quinta-feira, 19 de novembro de 2009

O campo fenomenal


Nas primeiras seis páginas, Merleau-Ponty segue retomando o erro clássico que conduziu a reflexão filosófica na análise do sentir. Até aqui, nenhuma novidade, quer dizer, não que não seja importante, mas se trata do reforço a velha crítica de sempre, a ‘idealidade’ ou o ‘idealismo’ que guiaram a filosofia até então, a falta de abertura ao ambíguo, a utopia de uma explicação que esclarecesse pontualmente cada elemento envolvido no problema, e assim por diante... Entretanto, algumas coisas novas aparecem ainda neste trecho, falo de conseqüências.
Primeiro, a deserdação sofrida pelo ‘eu empírico’, ele é um conteúdo da experiência e ao mesmo tempo, um sujeito vazio que a constitui. Em segundo lugar, a compreensão, digamos, ‘político-social’ da humanidade, na filosofia clássica se pensa a sociedade como uma comunidade de espíritos racionais, contra isso, sabiamente o autor alega: “só se pode compreendê-la assim nos países favorecidos, em que o equilíbrio vital e econômico foi obtido localmente e por certo tempo.” E segue: “a experiência do caos, no plano especulativo assim como no outro, convida-nos a perceber o racionalismo em perspectiva histórica à qual ele pretendia por princípio escapar [...]” (2006, p.89) e por aí vai. D’onde o ato filosófico primeiro deverá ser o de admitir a ‘historicidade’ (por outro termo futuro: a ‘carnalidade’) da reflexão e de seu objeto, seja a razão ou a experiência. A conseqüência especulativa (que, a princípio, é a que deveria importar) seria a de uma investigação mais fiel (contradição estranha não? Eu acho, mas isto é um outro problema...) do sentir e do campo fenomenal onde ele se realiza.
Ponty reclama também uma nova visão do imediato. Na compreensão clássica ele é mudo, afinal o filósofo não consegue dar conta da sua vida no instante em que a vive sem ‘pensá-la’ e com isso deformá-la! Ele pretende então dar a isso (nossa vida, a experiência particular, etc...) uma expressão (nem falemos agora do quão perigoso é a via em que tal pretensão nos envereda...). O fenomenal, o imediato, foi esquecido na medida em que se tentou ‘quebrar o código’ que lhe daria acesso. Merleau-Ponty se esforça por lembrar, mas eis que surge uma afirmação estonteante: “a essência da consciência é esquecer seus próprios fenômenos e tornar assim possível a constituição das ‘coisas’” (2006, p. 92). Domina-me a vontade de divagar sobre isso, quanta coisa a se pensar contra e/ou com as reflexõespontyanas. Entretanto, agora é preciso me arrumar para ir ao encontro do grupo hoje, quem sabe ainda quantas coisas mais poderão surgir, uau!, é melhor eu parar por aqui mesmo...
Só queria contar uma coisinha, eu segui vertiginosamente a leitura do texto e apesar da tonteira posso assegurar que vi por lá qualquer coisa que apaziguará um pouco nossas inquietações em relação à bela percepção!

Piscadelas! :)

terça-feira, 3 de novembro de 2009

A percepção originária!

E não é que na milésima releitura do trecho (Atenção e juízo) encontrei finalmente uma pista! Trata-se da alegação pontyana (página 74) de que a percepção empírica é segunda e que ela mascara o fenômeno fundamental da percepção enquanto conhecimento originário. Ok, eu admito, novamente temos muito mais sobre o que a percepção não é, a saber, não podemos confundi-la, sob hipótese alguma, com a mera sensibilidade que nos fornece os objetos materiais de nossas experiências, a percepção está aí envolvida, mas não pode ser a isso reduzida. A historicidade desta percepção empírica lhe permite retomar conhecimentos antigos e com eles determinar os objetos. E por isso imediatamente os identificamos de acordo com um tipo geral. Entretanto, já temos algo positivo acerca de nossa busca sim, afinal, Ponty afirma também que este reconhecimento efetuado instantaneamente na experiência pressupõe que abaixo da significação atribuída se dê um espetáculo que é tão genial quanto o de uma criação, tão inovador como se fosse visto pela primeira vez. Noutra oportunidade, com mais calma, eu gostaria de falar sobre um certo esquecimento da percepção originária, ideia talvez ingênua que me ocorreu. Mas agora é momento para explorar o caráter originário da percepção. Talvez ele indique alguma resposta para o post anterior. Afinal, se a percepção de que fala Merleau-Ponty não pode ser confundida com a percepção empírica, pode ser mais fácil admiti-la como presente em todos os demais estratos de nossa vida, incluso aí o da lógica e o das ciências exatas. Do ponto de vista empírico, tudo o que é formal e/ou analítico desdenha da experiência. Entretanto, também conceitos desta ordem, cálculos, etc. são significações que antes de serem enquadradas em universalidades são apreendidas em função de algum sentido que tomam para nossa vida via investigação filosófica e/ou científica. O que quero dizer é que, do ponto de vista da percepção originária, todas as coisas, conceitos, vivências enfim, são experimentados, vivenciados, na sua individualidade, facticidade, todo enquadramento, mesmo o mais formal é posterior e ainda que universalmente válido pressupõe esse sentido particular pelo qual ele surge em algum momento específico.
Seria esta admissão a mais radical das reflexões? Quais são suas conseqüências para a investigação filosófica? Tal radicalidade não implicaria ser alvo da própria acusação?
Bien, estas são questões que me assolam, o que me obriga a admitir publicamente aquilo que muitos já sabem ou notaram, isto é, que me valho de nosso grupo e deste espaço virtual para compartilhar minha intimidade de pesquisadora que precisa, tanto quanto produzir uma tese posicionar-se sobre a própria filosofia (neste último caso, claro, por um problema pessoal, talvez alguma patologia, sabe-se lá)...

Queridos membros do grupo, oxalá nos encontremos quinta próxima, saudosos de nossos papos, infelizmente terei de sair um pouco mais cedo, mas nada que nos atrapalhe. A vocês e aos leitores deste agradeço a paciência de tanta ausência!

Piscadinhas ;)